DE SUPERMERCADO A MUSEU
Quando falamos "Arte", imediatamente associamos à pintura dos grandes clássicos, ou àquele quadro de flores pendurado, solitário, na parede da nossa sala. Arte, ao que tudo indica, resume-se na pintura. Não nos lembramos da escultura, do cinema, das artes cênicas, da música..., mas isso fica para outra matéria. Meu papo hoje é outro. Pra falar a verdade, também lembramos que a arte, ou seja, a pintura, e quando muito a escultura, está afundada em museus poentos e arcaicos, onde somente vetustas figuras visitam.
Pois não é bem por aí, não. A arte pré-histórica, por exemplo, tinha propósitos mágicos. O homem lá daquelas épocas acreditava que se conseguisse apreender a forma do animal, desenhando-o nas paredes da caverna, também conseguiria capturá-lo, ao vivo e a cores. E, com muita sorte e algumas técnicas cinegéticas, lá vinha o bichão, morto, dependurado num varal, para ser rasgado, esquartejado, dividido entre as famílias que habitavam o lugar. Ritual de festa, de sangue, orgias gastronômicas.
Hoje, mais do que nunca, se produz arte. E a arte produzida já não tem mais aquele componente mágico tão evidente. E também já não é feita para durar séculos. Às vezes, dura minutos, segundos, talvez! A arte de hoje é descartável, desmontável, desfigurável. Não há mais lugar para ela nos museus, nos salões de exposição. Agora, tem que ser colocada nos lugares menos óbvios possíveis.
Olha, quer saber onde é o verdadeiro museu de artes visuais da nossa época? Quer saber que ainda existem, neste lugar, rituais gastronômicos, como na época dos nossos tatatatatatataravós? Pasmem, senhores, é o supermercado! É aí que vislumbramos as grandes e geniais idéias das artes gráficas, sofisticadas ao extremo, e que têm a tarefa primordial de, subliminarmente, nos pegar pelos olhos, pelo estômago, pelos sentidos. É o tal do apelo visual. Uma criança que mal sabe falar já distingue, pelas cores e formas, o refrigerante preferido, a balinha gostosa, o iogurte das surpresas. Alguns dos leitores devem estar se perguntando: "É, mas se os produtos e suas belas embalagens são vendidos, comercializados, produzidos em série, então não são arte, uai!!!"
Opa!!! Chegamos, enfim, à ferida!
São raros os artistas que não tenham de vender, comercializar de alguma maneira, suas obras. Isso não é coisa de agora, não. É só dar uma olhadinha para trás. Questão de sobrevivência, meu caro. E quem não o faz em vida, celebriza-se na morte — grande coisa —, alcançando milhões e milhões de dólares, cifras astronômicas, o seu cobiçado espólio. Uma obra de van Gogh também é um apelo visual, táctil — mas não se toca em quadros, ouviu? estraga — visceral, sensorial. E nós, leigos da arte, como os nossos filhos ainda analfabetos, também não reconhecemos, de pronto, a Ceia, de da Vinci, o Pensador, de Rodin? Apelo visual, meu caro, cultura imposta. Globalização. Muita tevê. O mundo entrando em nossa casa neste exato instante.
— Ah! E tem a questão da produção em série, da industrialização, da massificação. Nestes tempos modernos, depois de Gutemberg e da Revolução Industrial, não há porquê não falar de produção em série. A gente se beneficia da imprensa diariamente, jornais, livros. Toulouse-Lautrec se valeu da litogravura, que não é senão uma técnica serial. E o que falar de Rembrandt, Gustave Doré, Goya, Andy Wharol, Dalí, Picasso, Miró,... tantos outros artistas fantásticos, que revolucionaram gerações, usando técnicas de reprodução em série? E de Duchamp para cá, afinal, tudo que o homem produz ou interfere de alguma forma, é arte. Eta conceitozinho besta, esse! Besta no bom sentido, claro! Porque então, posso, em nome da arte conceitual, da instalação, da performance, colocar qualquer coisa junto com mais um montão de qualquer outra coisa e todas essas coisas, como mágica, transformar-se-ão em obras, valiosíssimas e disputadas a peso de ouro no mercado, de certo modo tendencioso, das artes. Como dizia meu antigo professor de desenho "instalação é de chuveiro, de pia, de descarga de privada..."
Mas voltando...
"— Ah! Mas eu nunca colocaria uma embalagem de sabonete, emoldurada, pendurada na sala da minha casa" - alguém irá retrucar. Eu acho que também não colocaria não, como também não colocaria dentro de um aquário, à vista de todos, na sala de jantar, a cabeça decepada de um boi, e suas vísceras, boiando, em fluidos esverdeados. Nas Bienais de Arte pelo mundo afora tem muito disso, viu? Hummmm, parece que os nossos antigos ancestrais já faziam algo semelhante com as cabeças de suas presas... Questão estética, dirão. Estética, entretanto, não é assunto para tão poucas linhas.
Agora, quando a gente disser que não tem um museu para visitar, que tal dar uma "entradinha" num supermercado e contemplar as maravilhosas obras de arte que nos acenam das gôndolas? Embalagens de bebidas, cremes dentais, pães, biscoitos, alvejantes, cigarros, caixas de bombons etc. etc. etc. Quem sabe? Tem muito artista por aí que desenha tão bem quanto estes de quem estou falando e que ignora seus talentos. Vai ver, é só uma questão de ponto de vista... Para estes dotados, eis o meu conselho: trabalhem bastante suas obras e façam uma exposição. Ou procurem logo uma agência de publicidade, um estúdio de animação, a redação de um jornal, uma emissora de tevê. Sem medo. Os talentosos, esses serão recolhidos. Um dia, veremos seus bons trabalhos, ou no salão nobre de um grande museu ou, talvez, na seção de laticínios e latarias... quem sabe?