Textos sobre arte
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A SAIA DA MÃE DA ARTE

A tendência natural do homem é desligar-se de seus laços originais. Nascemos, agarramos desesperadamente à saia de nossa mãe por bom tempo, desvinculamo-nos delas — saia e mãe —, tornamo-nos independentes até que, num momento qualquer de nossas vidas, repensamos o gesto e tentamos vincular-nos às origens, agarrando novamente à saia de nossa mãe.
Claro, a “saia” é metafórica. E a “mãe”, idem. Senão, a coisa escrita aqui não terá graça nenhuma.
Vejo a arte assim. Naturalmente emancipando-se de seu suporte, moral, ético e estético. E, desgarrando-se, proporciona para si própria, independência. Independência que, se bem conduzida, produzirá obra autêntica. Se não, uma outra, natimorta. Mas isso é outra história.
A pedra, para a escultura, arquitetura e pintura, é o elemento mais fundamentalmente original. Assim como a homofonia, a monotonia e a estaticidade melódicas o são para a música, a dança e a poesia.
O homem, em sua gênese como sapiens, habitou as cavernas, desenhou, pintou e buscou, em suas paredes, composições estruturais e colorísticas que se parecessem com a vida que lhe passava diante do nariz, do lado de fora da caverna. Da mesma forma, produziu danças rituais com três ou quatro passos básicos, cantou suas rezas e loas em melodias essencialmente monótonas, monocórdias e estáticas.
Através dos séculos seguintes, o homem aprendeu, construiu, descobriu. Viu que os baixos-relevos não satisfaziam a curiosidade e o ímpeto que tinha para criar um ser à sua semelhança. Sua morada não podia ser mais aquela que também abrigava feras selvagens, sua música não devia soar como gritos e intervalos melódicos que os animais usam para atrair-se. O homem percebeu que seu universo é mais amplo. A música, então, recebeu o auxílio da polifonia, das harmonias complexas, do serialismo dodecafônico. A dança beneficiou-se disso. A arquitetura cercou-se de técnica, requinte e elegância plástica até enovelar-se nas firulas góticas e barrocas. A escultura saiu da superfície da pedra, a pintura recebeu a carga das pinceladas cada vez mais grossas, quando não de objetos alheios a ela. A arte projetou-se para fora e para o alto. Do concreto para o abstrato. Da captura da simples forma à maneira dos clássicos para a captura da essência, da luz interior, à maneira dos abstratos. Neste sentido, a arte é a mais honesta e absoluta prova do crescimento espiritual do homem.
À medida que o homem leu e interpretou o mundo, desvendando os segredos sabidamente infantis, como a distância entre uma estrela e a Terra, as nuvens carregando enormes quantidades de água etc., perdeu também o interesse pelo mundo, no seu sentido lato.
O homem foi tão fundo no “conhece-te a ti mesmo” socrático, que não lhe restou nada mais consistente para sua apreciação, e então, tomou-lhe de assalto a alma, neste século torto, a náusea sartriana. Também desvincula-se, da saia de sua mãe. Enche-se — ou pretende encher-se — de movimento, complexidade, dinamismo, independência. Mas este “progresso” na arte, que demorou uns quarenta mil anos vê, em menos de meio século, o retorno, o avanço perigoso rumo ao seu suporte original que, embora diverso da parede de pedra, tem o mesmo significado: a tela de um microcomputador, onde se estabelecem relações dinâmicas, tonais e dimensionais tão desesperadamente dependentes como as do homem com cavernas que habitou em sua “infância”. O pincel e as tintas transformaram-se na seta do mouse e numa paleta de cores virtual. Esculpe-se em 3D — o homem à sua imagem e semelhança — em programas de computador. Em países reconhecidamente modernos, mora-se dentro da terra, em cubículos, quase casulos, quase cavernas. Também é feita em programas especiais a música produzida hoje, tais como as de tendência eletrônica, de forte cunho rítmico e pulsante, os “raps”, as batidas “dance”, monótonas, monocórdias e estáticas, e que encerram tanto poder cataléptico e extasiante como as danças e textos rituais de épocas remotas.
Avançamos — retrocedemos, melhor dizendo — para a barra da saia, uma saia virtual, imponderável, eletrônica, mas ainda uma parede — leia superfície manipulável plasticamente —, como as naturais, de pedra.
Agora, neste fim de século, perdidas as bases morais e estéticas — e as artes são as primeiras, as afetadas —, deveremos mergulhar para dentro de nós mesmos e então, teremos de aprender a ver, de novo, o que sempre quisemos nos revelar: o mistério do suporte original. Moral e estético.
A resposta estará sob as saias da mãe?

Não há, neste texto, qualquer enfoque preconceituoso lançado sobre a música, dança, poesia ou as artes plásticas produzidas em nossos tempos mas, antes, uma inquirição dialética — e utópica, acima de tudo — sobre qual será o destino da arte, a partir de agora, onde absolutamente tudo é considerado arte, mediante a sua entrega a “especialistas” — os tais curadores, os verdadeiros alquimistas modernos — que se encarregam de transmutá-la de merda para ouro.
Freud adoraria ver isto!