O COMEÇO DA ARTE
Este é o primeiro de uma série de textos — que terão linguagem despojada e bem-humorada — sobre as mais significativas épocas da História da Arte, embora saibamos que todas elas são de enorme importância. Entretanto, a proposta deste conjunto de textos é menos explicar do que divertir o leitor.
Teorias, muitas teorias. O que se deduz é que a nossa Terrinha nasceu de uma explosão, apelidada de Big Bang. E ficou a vagar pelo espaço, esfriando a cabeça, equilibrando-se, exercitando sua paciência para agüentar o que vinha por aí.
Depois disso, muita água rolou. Milhões de anos. Um monte de bichos esquisitos apareceu e do mesmo modo desapareceu até que, numa esquina qualquer da evolução, uns 800.000 anos atrás, no período quaternário, no qual continentes e mares já estavam em seus devidos lugares, surgiu uma figurinha estranha, frágil, andando deselegante sobre os dois membros inferiores. Dizem as más línguas, que era primo em primeiro grau dos macacos, mas isso eu não sei, não. Não me meto em brigas de família dos outros. A esse cara, peludão, de modos grosseiros, foi dado um nome pomposo: "Homem de Neanderthal", que habitou a Ásia Central no período histórico denominado Paleolítico Inferior. Dotado de curiosidade imensa, acabou indo morar pelo continente europeu afora. Como era meio fracão, começou a fuçar em pedras, paus, ossos e afins, para fazer um porrete e uma faca. Com eles, podia descer o cacete na cabeça dos animais, na de seus companheiros, na das mulheres, dilacerar carnes e cavoucar pedras mais moles. Assim como as crianças, ele não separava a realidade da fantasia, e achava que tudo era uma coisa só. Para ele, não havia alma. Morreu, acabou. Uns bons milhares de anos para a frente, porém, repensou suas convicções.
Por estas épocas, já estava sabido. Como investigava tudo, passou a modificar as matérias da natureza para dar forma à sua visão original de mundo. Já acreditava em alma, já achava que seus companheiros podiam renascer, como sementes. Bastava enterrá-los, colocar umas pedrinhas em cima e esperar. Bom, até hoje, não nasceu nenhum, mas os menires, dólmens e cromeleques estão por aí, para comprovar o que estou falando. Sua caixa craniana abrigava agora um cérebro desenvolvido, muito parecido com uns que a gente ainda acha por este século vinte.
E o Neanderthal evolui (agora tem uma nova teoria, dizendo que não...) para o "Homo Sapiens", homem sabido, em latim. Isso há mais ou menos, quarenta mil anos.
Para este nosso tataravô, arquitetura, escultura e pintura não tinham diferença. Serviam apenas para protegê-lo do frio, da chuva, dos animais. E dos espíritos.
Pois não é que sua visão de mundo é considerada o início da Arte? Tudo indica que foi na Europa ocidental, França e Espanha, principalmente. E mora lá até hoje, segundo alguns.
Só que o termo Arte, como o conhecemos hoje, de peça de museu, de objetos (alguns, abjetos) sem utilidade, de decoração, ainda não existia.
Um dia de chuva, este nosso parente, sem poder tirar o narigão da caverna já fazia uma semana, só para passar o tempo (não havia ainda televisão, viu? Os Flinstones vieram depois...) começou a riscar a parede com um toco de carvão. E, para seu espanto, percebeu que aquele rabisco tinha uma semelhança com algo que já tinha visto. Sua alegria não teve limites. Representara, pela primeira vez, a realidade. Olha, acho aqui comigo, que o desenho era de um animal que ele estava a fim de traçar, depois de tantos dias de jejum.
Ah! Seus amigos, mulheres e filhos, vendo aquilo, imitadores natos, começaram a desenhar também, sem parar. Cavalos, veados, bisões. Aproveitavam até mesmo as imperfeições das rochas para reforçar visualmente partes dos animais desenhados. Por grande obra do acaso, no outro dia - que nasceu ensolarado - o clã conseguiu matar um daqueles animais, desenhados no dia anterior. Então, acharam que se desenhassem o bichão com o maior naturalismo possível, ele seria capturado e saciaria a fome de um montão de gente.
Tem até um desenho de um bisão no qual mãos humanas foram superpostas, através de tinta soprada. Podemos fazer um paralelo entre esta imagem e a frase "vou botar a mão naquele sujeito..."?
Daí, para atribuir propósitos mágicos aos desenhos, foi um pulo.
O engraçado é que os livros sobre arte rupestre, que é a arte feita na rocha, em sua maioria, só falam de desenhos de bichos. Mostram, às vezes, umas esculturas e baixos-relevos de umas tais "Vênus", representando mulheres, gordas, com uns bundões e peitões, mulheres talhadas para a procriação. Para nós, hoje, são um horror, mas para eles, deviam ser uns... uns tesõesinhos. Tem a de Willendorf, a de Laussel, a de Lespugne, todas apelidadas com nomes de sítios arqueológicos.
Pois tem muito mais que isso. Tem uns desenhos e esculturas cabeludas, viu? Homens com membros sexuais expostos, imensos e eretos, cópulas, instrumentos de excitação feminina. Sacanagem da grossa. Claro, a sobrevivência da espécie devia ser, também, uma coisa mágica. Não parece natural que desenhassem e esculpissem suas transinhas, de vez em quando? Só pra dar uma "esquentadinha" nas relações do grupo.
As cavernas de Dordonha, Lespugne, Lascaux, Trois Frères estão abarrotadas de destas imagens, animais sendo traspassados por lanças, mãos humanas pintadas sobre bisões, vênus, sacanagens pré-históricas... a de Altamira, então, é chamada de "A Capela Sistina da Arte Quaternária", de tanto desenho que tem por lá. Todos sabemos o que representa a Capela Sistina para a arte, não?
A arte pré-histórica obedece a três estágios: o sincretismo, que é o componente mágico - a figuração de um bisão não se refere à sua imagem, mas ao próprio animal -, o analítico, que é o período naturalista, e o sintético, quando começa a abstrair e conceitualizar os objetos representados. Mais ou menos o que aconteceu com a arte moderna, desde o realismo até a abstração.
Passado um tempo, quando o homem se instala definitivamente em sítios propícios a uma vida mais sossegada, e começa a plantar e criar animais, passa a ignorar o naturalismo em seus desenhos e torna-os esquematizados, cria imagens-símbolos e o conceito das coisas coincide com a sua concepção dual - corpo e alma - do mundo.
Neste entremeio, na chamada "Idade do Bronze", dentro do Paleolítico Superior, mais ou menos uns dez mil anos antes de Cristo, o artista das cavernas já estava cansado de desenhar, desenhar, esculpir, talhar. Esgotara-se sua criatividade - como acontece em todos os fins de período da arte. Queria deixar mais que desenhos. Queria grafar sua passagem pela vida sob outra forma. E parece que sabia que estava perto de uma coisa grandiosa. A abstração que alcançara, estava muito próxima das formas rudimentares de escrita, que vemos mais adiante em povos do Mediterrâneo. Passou a contar sua história com uns desenhinhos, organizados, de pessoas, estrelas, lua, bichos, plantas.
E então, foi um dia especial para a civilização humana. Num belo dia de outono, acho, nascia a escrita.
Aí, um povinho muito do bacana, que tinha uns hábitos estranhos, como comer grilos e colocar najas na cabeça, que empilhava um montão de pedras sobre um defunto embalsamado, e adorava um tal de Amon Ra ou Ra Amon (que é primo do nosso correspondente RaAmon), e que não era outro senão o sol, surgiu em cena. Mas isso já é outra história.