Textos sobre arte
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O MITO DO PALAVRÓRIO DIFÍCIL

"... surge uma reverberação longínqua de imagens descontínuas e dissociadas, como em estado de absoluta anomia..." "... espécie de percepções eróticas, conduzidas à base de associações metonímicas..." "... certa sensação de inadequação entre a pureza desconcertante do gesto construtivo e a fisicalidade impositiva desses materiais."

(textos extraídos de catálogos sobre arte contemporânea brasileira)

Quando lemos uma matéria sobre a arte visual do século XX, mais especificamente, a arte realizada a partir da segunda metade do século, a dita "conceitual" montagens, instalações, assemblages, objetos e que tais, parece que mergulhamos num mundo de palavras desconexas e absurdas, frases inteiras de puro exercício vocabular, onde a verborragia exposta é tão traumática, que deixamos de lado o texto e concluímos, por nós mesmos, sobre os objetos que compõem o quadro, ou a escultura. As palavras, do artista, ou do crítico, desejam ser mais profundas que a própria imagem, ali descrita.
Dá-se a impressão de que quem as escreveu, não conseguindo diminuir o impacto que a matéria visual impõe - e aí, sim, é que a obra se torna original - tenta, de todos os modos, mostrar a sua sapiência e a sua iniciação, que é costumeira nos textos narrativos sobre arte contemporânea. Procuram até mesmo por sintomas clínicos. E, num gesto de quase desespero, explicam o inexplicável, ponderam o imponderável, situam, em palavras, o que o artista não consegue situar em imagens. Ou, talvez, nem tenha pretendido situar.
Por uma razão muito simples: o artista plástico e o artista do palavrório - que podem ser a mesma pessoa - querem-nas, as respectivas obras, completamente intelectualizadas, dotadas de tamanha profundidade psicológica, que nem mesmo os mais versados em arte conseguem entender. Esgota-se a percepção do objeto, mas as palavras... É uma questão de ego avantajado.
Então, o artista elabora a obra, e escreve, ou manda escrever, um texto de apresentação, ininteligível; pronto! eis a sua imediata canonização, a originalidade e a fama, e que dura, segundo alguns, quase quinze minutos. Longos quinze minutos, bem entendido.
A arte deste século, em muitos casos, deixa de ser social e torna-se tão individualista, tão abusivamente conceitual e pernóstica, vivendo sob tamanho autismo, que até mesmo o grande público, para o qual a arte deveria ser dirigida, cansa-se; e de tanto palavrório e de tantas explicações, tornam-se chatos o texto e a obra plástica. Somente ao próprio artista cabe o entendimento de sua criação.
Quem sabe, o texto deveria também ser emoldurado, ou colocado num pedestal, pois parece ser tão ou mais importante que o seu correlato visual.
A arte é concreta. E tem lá a sua linguagem própria. Como a música, a arquitetura, o cinema. Por isso, as palavras deixam de ter significado mais especial. Pois o observador deve, antes de tudo, "sentir" a obra, e não ser levado por uma enxurrada de palavras, tão inconsistentes quanto mal empregadas.
A máxima renascentista pittura è cosa mentale (a pintura é coisa mental), serve apenas e tão somente para a matéria visual em questão, creio. Não se refere, em absoluto, às toscas armadilhas dialéticas e retóricas destes textos "tão bem escritos", e que acabam por não dizer coisa nenhuma.
Seria de bem geral que o texto pudesse explicar mais esta "estética da retórica" e menos as obras, às vezes, reprováveis e inautênticas, onde se colocam lado a lado as porcarias eliminadas pelo mundo desenvolvido, em nome da "arte moderna", porcarias estas que queremos longe de nossos olhos e narizes.
E então, as malogradas tergiversações visuais do artista deixariam de ser pensadas como opera prima e suas hordas de seguidores que fazem, muito freqüentemente, má arte e maus textos, seriam, finalmente, banidas.