A GRÉCIA E OS CAROÇOS DAS AZEITONAS
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"Somos todos gregos". Com esta frase, o Byron, aquele poeta inglês, quis mostrar a influência que a Grécia promoveu sobre o mundo ocidental. Durante os séculos que se seguiram, as artes, principalmente a escultura e arquitetura, e a filosofia, foram metodicamente abastecidas pelas coisas que os helênicos fizeram e pensaram. Hoje, quando deparamos com aquelas estatuazinhas nos jardins de nossas casas, remontamos invariavelmente ao período clássico da arte e pensamento gregos. Só que destituídas de valor moral. Apenas o estético — e que eu reputo duvidoso — parece permanecer. Ainda assim, o "belo" do Platão está a serviço do gosto "kitsch" de nossa cultura, desprovido de qualquer valor, senão o decorativo. Mas vamos à formação desta moçada que tantos caminhos ofereceu e continua nos oferecendo até hoje.
Já no Neolítico, algumas civilizações se estabeleceram em solo grego. Os cretenses, com uma cultura e uma política mais avançadas, deram uma "forcinha" a essa gente toda. Então, um verdadeiro caldeirão étnico-cultural ferveu nas ilhas em torno de Creta. Foi um tal de povo derrubar povo, ilhéu atacar ilhéu, que não tinha fim. Os jônios, o povo continental, são expulsos pelos aqueus e eólios, que destróem também a grande civilização minóica, de Creta. Chegam os dórios, bonzões na arte de forjar armas em metal e engrossam o caldo que resultou no bravo povo grego.
Esse período é pobre em produção artística. Também, pudera, com essa violência toda... somente a cerâmica e alguns artefatos em bronze, além das muralhas que cercavam as cidades. As ascensões e quedas destes povos datam de 1200 até 800 a.C., período denominado "homérico", devido ao fato de todas as notícias acerca destes povos terem chegado até nós através de duas obras de Homero: a "Ilíada" e a "Odisséia", de profundo caráter épico.
A arte grega será dividida, para melhor entendimento, em três períodos.
HELENISMO ARCAICO
A arte desta época está repleta de geometrizações, vasos domésticos e funerários de enormes proporções - já exercitavam suas habilidades para a escultura e arquitetura monumentais? - e um pouco mais adiante, incluem em seu repertório, figuras humanas, hierarquicamente definidas, nas muitas cenas de cortejos fúnebres, barcos de combate, danças. É uma arte voltada essencialmente para a aristocracia, classe intelectualizada e exigente. Alguns pesquisadores relacionam essa produção em massa com a arte moderna, pelas características do estilo simplificado, rápidas em sua execução, o que permite maior número de peças. Hum!!! Parece com a Pop Art, com a tendência do novo design industrial... todas estas correntes ditas modernas têm um toque do chic e da coquetterie da civilização minóica. Não somos tão modernos assim...
Não há muita escultura ainda, e se as há, são pequenas, em terracota, bronze e marfim. Outros trabalhos em bronze aparecem no continente num lugar chamado Beócia. Tem uma estátua, o "Apolo de Mânticlos" - Apolo é o nome dado à figura humana masculina que tem muita beleza física - de um geometrismo chinfrim, duro, crispado. Mais tarde, os atenienses irão se valer destes defeitos para achincalhar aquela produção artística. E o termo persiste até hoje: quando queremos dizer que uma pessoa é boba, ignorante e sem cultura, chamamo-la beócia...
Neste momento, lá pelo século VIII a.C., cessam as invasões e migrações e o povo grego, finalmente, se forma; os eólios, os jônios e os dóricos são os três filões básicos responsáveis pela miscigenação. É o período denominado "Helenismo Arcaico". Aos Dóricos, a escultura grega tomou emprestadas a austeridade, a força e o dinamismo, a porção masculina; aos Jônios, a porção feminina, a graciosidade, o sorriso arcaico (já ouviu a expressão sorriso amarelo? vem da contração facial característica das primeiras estátuas, os "Kouros"), o colorido. A pintura desta época que chegou até nossos dias, é rara. São célebres as "figuras negras", silhuetas escuras pintadas sobre o tom natural das cerâmicas e que dão grande impacto visual aos vasos e pratos. O mais importante pintor destas figuras foi Exéquias. Mais tarde serão as "figuras vermelhas" que darão o tom. Mas a figura humana já assume papel destacado na arte, embora continue dura, sem movimento.
A arquitetura deste período começou com os templos, derivados dos mégarons micênicos, de planta originalmente circular. Logo depois toma a forma retangular. Estes templos eram feitos para abrigar imagens das deusas, e não grandes multidões. A partir do século VI a.C., as mudanças estruturais são poucas; o apuro das linhas é buscado com rigor. As colunas (seis, na fachada clássica) tornam-se mais esguias, o frontão é preenchido com cenas esculpidas. Aliás, os nomes das ordens gregas, que se vêem mais facilmente nas colunas, derivam dos antigos povos, os dóricos, jônios e coríntios.
Psístrato, um tirano, sobe ao poder, porque a aristocracia não está está com nada. Populista e demagogo, enche Atenas, a cidade-estado, de grandes e boas obras. Sólon e Drácon fazem as primeiras leis. Apesar disso, o povão continua descontente e, cansado da truculência monárquica, da arrogância aristocrática, da injustiça oligárquica e da tirania hereditária, decreta seu desejo: o povo governando o povo. Nasce a Democracia.
Agora, se pensarmos a Hélade como modelo social, de "Aretê", (virtude), um paraíso terrestre, com divisão equilibrada de bens, de perfeição social estaremos, tacanhos, creditando a ela dons que, definitivamente, não possuía. É bem verdade que, em três séculos, fizeram tanto mais que as outras civilizações que acabaram por decretar todo o moderno pensamento ocidental. É bem verdade que, o século de Péricles criou homens cujos pensamentos revolucionaram a filosofia, as ciências e as artes, mas não era essa belezura que todos pensam, não.
Mas vamos lá.
O SÉCULO DE PÉRICLES (séc.Va.C.)
Atenas está enfiada até o pescoço nas "Guerras Médicas", lutando contra os persas. Compõe a Liga de Delos, uma liga de cidades-estados. Esse clube do Bolinha ganha a guerra. Atenas sai revigorada e admirada. Péricles, o "Olímpico", um dos principais nomes desta época, é o artista-estadista brilhante que, ao lado de Fídias, Míron, Sófocles, Íctinos, Policleto, Calícrates, Sócrates, escreveu, com todas as letras, o apogeu da civilização grega. Este século fenomenal passou à história como "o século de Péricles". Atenas enriquece-se com os tesouros que ainda hoje conhecemos, como os Propileus da Acrópole, o Partenon, o Erecteion e uma série de outras obras urbanísticas. Na verdade, as melhores expressões do pensamento grego estão na arquitetura e escultura: simplicidade, leveza e harmonia de conjunto. Coisa de grego antigo. O mundo começava a ser pensado racionalmente e o homem tornava-se, por conseguinte, a medida de todas as coisas.
"A aurora e o crepúsculo do século V têm uma cor de sangue. Este século abre-se pela prodigiosa mas curta defrontação dos gregos e bárbaros e acaba-se em interminável confusão, na qual, numa luta fratricida, os gregos gastam suas forças vivas. Entre os dois extremos, os "cinqüenta anos (a pentecontaetia), que são o incomparável triunfo de Atenas" - Pierre Lêveque, "A Aventura Grega".
Ah! Mas há uma verdade terrível nisso. A perfeição do século de Péricles, como apontou Marx e Engels, é recheada de vazio, um vazio existencial decorrente da mesma perfeição que entediou a própria civilização que a criara. Mas isto é papo para outra conversa. De quem estávamos falando mesmo? Ah! dos gregos...
Aqui aconteceu muita coisa, no setor social, na arte do teatro, da música, da escultura e da arquitetura. No teatro, a tragédia (de "tragos", ou bode, a popular bebedeira), a sátira (culto a Dionisos) e a farsa e o drama (a principal expressão da democracia). Na música, a criação dos "modos", escalas ainda hoje usadas na MPB de qualidade, no jazz, as chamadas "escalas modais". Na escultura e arquitetura, o gênio de Fídias, o grande colaborador de Péricles. A beleza pereniza-se nas obras, as regras de ouro do classicismo grego estão por toda parte. As esculturas eram medidas em "cabeças". Sete cabeças a princípio, sete e meia e, depois, oito cabeças, tornando as figuras mais altas e mais graciosas. Cabeças... seria a exaltação à criatividade e inteligência?
A arte do retrato se manifesta até meados do século. Apolos e Vênus por tudo quanto era lado. Deuses, deusas, templos, a "polis" urbanizadíssima, cariátides, harmonia, movimento, proporção, idealização das medidas, o homem ideal, o ser perfeito. E por aí vai. Os artistas " viajavam" legal. O século de ouro desemboca no quarto século antes de Cristo, com mostras de querer continuar a empreitada rumo à perfeição através, agora, da representação das emoções (a emoção permanece ausente, até então, na estatuária grega). Praxíteles despe a figura feminina (o homem é o peladão da história; sua nudez representa os ideais olímpicos) e a reveste de panos diáfanos, leves e transparentes e quando não de encantos carnais. Tudo isto esculpido na pedra e modelado no bronze, tá bem entendido?
Mas a Guerra do Peloponeso anuncia-se, terrível. Esparta, outra cidade-estado sai vencedora. Com a morte de quase um terço dos envolvidos, o espírito arrogante e altivo dos gregos - de Atenas - é rubricado indelevelmente com a marca da vida breve, finita e realista.
Havia qualquer coisa de podre na Grécia. Acho que pensavam assim: "- os deuses estão mortos, Péricles também e nós não estamos nos sentindo nada bem". Por que, então, apegarmo-nos a idealismos?
E toma retrato, carregado de dúvidas, visíveis nas rugas profundas, nos drapeados das roupas; aprofundam-se os estudos de velhos e crianças - um indício da falta de jovens, mortos nas guerras? -, Lísipo cria o seu cânone (modelo ideal) de oito cabeças, mais esguio e visível de todos os ângulos que fosse observado. Da pintura pouco se sabe, mas eram cenas tiradas do cotidiano, feitos mitológicos e históricos. A preocupação com o modelado e com a expressão é grande. Figuras vermelhas e brancas pintadas nas cerâmicas; o rosto, tomando o lugar da arcaica frontalidade, volta-se de perfil; mais adiante é pintado em três-quartos. Polignoto e Apolodoro são os grandes nomes da pintura. Suas rebuscadas composições vão orientar, lá adiante, a pesquisa sobre a volumetria e a perspectiva linear. O Epidauro está pronto. Também o templo de Ártemis — uma das sete maravilhas do mundo antigo —, de Apolo—- com ele, a ordem coríntia entra em cena —, o planejamento urbano está legal. Tudo parece bacanão.
Portanto, o... o túmulo do período clássico está pronto.
A Grécia não é mais a mesma. Perdeu sua hegemonia, perdeu território, perdeu o vínculo nacionalista que ligava o povo. Sua existência, assim como sua arte. é apenas idealizada, ilusória. A morte do grande período de sua Arte aproxima-se.
O PERÍODO HELENÍSTICO (ou a Morte Anunciada)
Cada período da história conta, em sua arte, com três etapas básicas: a primitiva, a clássica e a barroca. Bem, esta teoria não é comungada por todos os historiadores. Por primitiva, vamos entender as formas embrionárias, o berço de tudo. O período clássico é onde as formas, amadurecidas, são a base e a matéria em si. E o rebuscamento, a complicação, o desequilíbrio - necessário e indispensável - e os excessos são o período barroco.
O último período da arte grega é barroco, em sua estrutura: movimento, dramaticidade da cena, perspectiva e profundidade são suas características marcantes.
Mas fica a questão: tais extremos são o melhor da técnica e o apogeu de uma arte ou simplesmente o prenúncio de sua morte? o derradeiro arfar do agonizante estilo, esvaziado de suas proposições e idealismos basais, um estilo a serviço do nada? Por outro lado, Platão ensina que a arte sem qualquer sentido utilitário é, por isto mesmo, mais bela. Sofisma, bem ao gosto dos gregos: se a arte se esvazia, se ela se destitui de seus mais altos sentidos de moral e beleza, não é senão o arauto de sua própria morte; porém, se permanece nela algum resquício de serventia decorativa, utilitária ou religiosa ela, de maneira alguma, pode ser bela. O que também anuncia sua própria morte. Portanto, existe, realmente, a Arte pela Arte?
Vamos terminar. Tá por pouco.
A guerra do Peloponeso marca Atenas. Alexandria e Pérgamo são, agora, o centro cultural do mundo. A arte serve aos reis, ao povo mais cheio da bufunfa e aos homens de negócio; torna-se popular e decora as vilas dos romanos. O dinheiro é o deus. Cópias e mais cópias de obras clássicas, cenas do dia-a-dia: faunos, alegorias - sem o frescor alegre e brejeiro de outros tempos -, banalidades frívolas. Na literatura, fala-se de amor, de conflitos sociais, de romances proibidos, de testamentos mal divididos: o dinheiro é o eixo central da trama. A pintura dos vasos desaparece. Já não há painéis nem murais: surge a pintura de cavalete, estudam-se as leis da perspectiva, o "trompe l'oeil", barroquíssimo. Toma vulto o realismo - e que seria a tônica do retratismo romano, posteriormente -: os defeitos físicos e morais da raça humana não podem mais ser negados. Lisístrato, irmão de Lísipo, chega às raias da realidade. Na arquitetura, poucas inovações. Didimáion, em Mileto (enorme: 116 m x 52 m), um templão, é uma exceção. Sobra para a escultura, a tarefa das inovações. Não havia o que melhorar nas formas limpas de Praxíteles e Lísipo, mas o gesto, o átimo do momento anterior ao movimento - podemos vislumbrar as teorias atomistas de Demócrito ou a mutabilidade dos elementos de Parmênides e Heráclito? -, as características morais dos retratados, continuaram sendo estudados e desenvolvidos ad nauseam.
O que mais impressiona são os grupos. Grupo é a escultura que retrata um monte de gente, e que substitui a figura solitária, neste período. Não que não tenham sido criadas figuras únicas - são, deste período, a Vitória de Samotrácia, o Colosso de Rodes, o Héracles Farnese, a Vênus de Milo -, mas a pujança e o drama de Laocoonte e seus filhos, prestes a sucumbir antes as formidáveis serpentes, o gaulês e sua mulher, surpreendidos teatralmente no momento crucial entre a vida e a morte, o altar de Zeus em Pérgamo, e suas alegorias representando o triunfo dos gregos em suas guerras, o heroísmo e o nacionalismo - tinham que se agarrar ao passado... - exacerbados, nos levam a indagar sobre o virtuosismo a serviço da arte que, doravante, será despojada de qualquer sentido prático e, por esta razão, mais bela, alcançando, finalmente, a ataraxia, a qualidade moral do inevitável, do fatalismo e da aceitação do destino.
Este esvaziamento da arte não se deu em lugar ou época contemporânea à nossa. Já nos estertores da civilização helênica, prenunciava-se o processo. Não nos culpemos, portanto, por isso. É o legado, oposto, que toda cultura nos impõe. E essa medida é tão mais larga quanto mais largos são os seus esteios. Pobre Grécia, enredada em sua própria teia racional. Laocoonte e seus filhos não seriam, em última análise, essa pobre Grécia, e as serpentes, o seu racionalismo? Correspondentes míticos, junguianos e freudianos à parte, eu completo: pobre Grécia, pobre mundo de hoje...
Pobre no bom sentido. Restaram-nos os caroços das azeitonas para nosso deleite. Mas... a história continua, inexorável, em passos largos. E aí chega a vez daquela moçada que adorava um vino, um pão e um cirquinho. Mas meu espasso acabô, plagiando o nosso amigo Toni Q´uéloguis. Fica pruma próxima vez.