Textos sobre arte
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A ARTE E SUA FUNÇÃO SOCIAL - II

A multiplicação dos movimentos e a morte dos estilos têm orientado o campo das artes, nos últimos 150 anos. Nunca houve, em toda a história do homem, tão sérias e velozes conseqüências intelectuais como as que se seguiram à filosofia de Descartes e do racionalismo do século XVII. A inteligência não mais existe apenas para contemplar e compreender a ordem do universo; deve, agora, reconstituí-lo a partir das intrincadas revelações do pensamento abstrato. Doravante, compreender, é dominar.
Temos rompido nossas ligações com o passado devido ao furor construtivista e inovador que norteia as artes, a partir da metade do século XIX. Conhece o artista todo o poder da criação em virtude das sucessivas rupturas que os movimentos na arte impõem aos antecessores. Toda revolução é um começo absoluto, que nega o passado pessoal e histórico. Afasta-se o homem da natureza; fragmenta-se-lhe o mundo. Como conseqüência deste conceito, o fracionamento e as divisões centesimais dos movimentos e escolas. Agora, tudo será permitido. O Romantismo é a primeira expressão desta crise. Esvaem-se, dentro dele, o sentido clássico das normas formais e compositivas. A criação individual entra em cena e a intenção subjetiva dentro da obra dá sinais que algo de revolucionário está para acontecer: a moderna crise dos valores. Arte não será mais forma, mas conteúdo. Briga o homem não mais com a forma ou com o objeto, mas com a idéia.
A subjetividade do artista como criador, portanto, é o que vale. Sem importar-se com uma ordenação sutil e básica, que seja, esfacelam-se a aparência e a essência. Eis a causa do hermetismo exacerbado e, por vezes, inalcançáveis os seus conceitos, para os que se postam diante de uma obra de arte moderna. O que significa isso? Qual o propósito do artista? Que ligação tentou-se estabelecer entre a obra e o mundo? Neste perigoso jogo de relativismos, perdem-se as intenções artísticas do trabalho. A experiência é tão sufocantemente individual que é rejeitada pela maioria absoluta dos espectadores. O pensamento, desligado de uma ordenação, que é suporte da estrutura do universo, é refratário e incomunicável. Imaginemos um automóvel. É a ordenação de suas tantas partes que nos permite reconhece-lo. É a mesma coisa com a poesia, ou a música, ou a arquitetura. Deve ser inteligível, antes de pretender ser original.
Mas criar e proporcionar a discussão acerca do mundo é prerrogativa apenas da arte moderna. É, no mínimo, moderno. E científico. A arte aproximou-se, novamente, da ciência. Prova disso é a fotografia, o cinema, as artes gráficas que criam em série, o vídeo, a arte digital. E, se criar sem estabelecer um vínculo com o passado é impensável, também esgotou-se o tempo para a cópia, ou para a simples revisitação de um passado que já não se mantém aprumado em suas bases morais e éticas e que seja, ao mesmo tempo, reflexo de nossos dias.
Há que se optar pelo caminho do meio. Como? Criando, revolucionando, mas resguardando e retornando à nossa essência, à nossa natureza emocional e cultural. Caso contrário, não haverá continuidade entre passado e futuro e o que se verá serão apenas novas e múltiplas rupturas, recomeços ambíguos e desorientados dos tantos estilos e movimentos, que criarão mais desequilíbrios nos valores humanos, e o alheamento cultural será a conseqüência mais funesta.
Bem. Vejo no artista e na arte, muito mais que em outros campos do conhecimento, a transcendência do ser humano. Acredito e credito ao artista e à sua arte, a possibilidade de dar um sentido às coisas do mundo. E se neste discurso acima exigi demais da arte, não foi por mero acaso. Sei de sua força.
Será ela, e nada mais, a amalgamadora, a que irá recompor novamente, a alma humana, tão fragmentada e retalhada quanto nosso tempo.

"Toda sociedade destinada a durar, deve, ao mesmo tempo, conservar e inovar"
Louis Salleron

Que espécie de linguagem advirá da (re)união da arte e da ciência, novamente? É o que veremos no próximo texto.