Textos sobre arte
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A ARTE E SUA FUNÇÃO SOCIAL – I

O homem difere dos animais pela sua incrível capacidade de produzir coisas inúteis. Um pássaro não voa cem metros à-toa, mas nós praticamos um footing de quinze quilômetros para manter a forma, mesmo sabendo que dali a pouco vamos ingerir mais calorias que o necessário e continuaremos esteticamente tão imperfeitos como antes da caminhada. E estou falando da estética, a ciência que administra as artes todas.
Fica aqui uma pergunta. Que raio de palavra, "arte", é essa? Será que as civilizações criaram as peças, as músicas, poesias, pinturas e esculturas, os monumentos, somente para serem admirados e venerados? Eis aí o nosso erro: achar que simplesmente o admirar algo constitua, por si, arte. A paisagem é linda e a admiramos, porém não é arte. São Tomás ensina que a admiração deveria vir acompanhada por uma idéia criadora, pois a arte é, em essência, criadora. Se não, não é arte. Mas devemos às inutilidades cotidianas que produzimos a condição divina da superioridade da espécie aos outros animais. Nossa civilização criou pirâmides, Ágoras, Epidauros, Partenons, arcos triunfais, crucifixões, Monas Lisas, Guernicas, grandes concertos e óperas maravilhosas, peças teatrais, livros que nos possibilitaram compartilhar da vida alheia — e de seu ponto de vista que desvendou o mundo — pontes maravilhosas, belos navios, aviões de linhas arrojadas, brilhantes cortadores de unha, coloridos pegadores de roupa, barulhentos relógios de pulso, robustos computadores pessoais e por aí vai. Quanta inutilidade!
Ainda que não tivéssemos tudo isso, mesmo assim, poderíamos continuar vivendo com a mesma qualidade de vida. Igual à qualidade de vida de uma lagartixa, por exemplo.
A arte, portanto, é quem nos aproxima da verdadeira essência humana, já que o que nos difere de outras espécies animais é a produção de inutilidades. E existirá coisa mais inútil que a Mona Lisa? Pintada em Florença, viajou por uma montanha de lugares e instalou-se - definitivamente, parece - no Louvre. Nunca a conheci pessoalmente e nem por isso, minha vida tornou-se menos saudável.
Nem a sua, caro leitor.
Mas... oras. A nossa vidinha também ficaria muito, mas muito mais sem sentido, sem o mistério e a graça de La Gioconda que conhecemos através das gravuras e dos livros. São o ócio e a inutilidade, que tornam o Homem espiritualmente mais avançado. E mais rico. E mais feliz.
Pois se nos tornamos um invólucro racional, apenas, sem tempo para o ócio e a inutilidade, se vivemos concretamente, da casa para o trabalho, para o banco, para o ônibus ou carro, não mais compartilhando a paisagem, o mundo visível, as relações humanas, nossa vida enche-se daquele niilismo existencial e os dias e noites esvaziam-se de sentido dentro do conceito mais caro da palavra "humano", o animal dotado de alma.
O grande problema que vejo é que a arte, especialmente a que se origina neste século, tornou-se muito elitizada. Somente uns poucos iniciados é que compreendem o trabalho de determinado artista. Ah... e o próprio artista, às vezes.
Assim sendo, a arte, tendendo perigosamente à extrema individualidade, ao invés de emocionar a humanidade toda, satisfaz apenas ao gosto exigente (e/ou duvidoso?) de meia dúzia.
A arte nunca é um fato, em absoluto, isolado. Em sua moderna concepção, rompe com a tradição da continuidade da civilização. A arte, após o romantismo, é sempre um começo absoluto. Partindo do zero, renega, portanto, o passado, rompe com a continuidade. Entretanto, longe de evadir-se da realidade, como querem alguns, a arte deveria aglutinar e proporcionar novas formas de relacionamento com o mundo natural e cultural.
O Homem precisa da emoção, para que o seu espírito não compartilhe do torturante empobrecimento que sofre à falta de um maior sentido social, que sofre ao esvaziamento de sua verdadeira essência devido à alienação econômica imposta pela vida moderna: sua descaracterização pessoal. De outra forma, para que vamos ao cinema e compartilhamos da dor da existência de outro ser humano? Não bastaria a nossa própria? Por outro lado, entretanto, para quem um artista, que imprime à sua obra uma visão extremamente egoísta e hermética, dirige a sua arte? Para ele próprio? Se for, então não há muito sentido, nela. Creio que o artista não cria para si próprio, somente.
A arte poderia acabar-se, um dia? Claro que não, pois enquanto houver um produto inútil no mundo, ali terá o dedo de um ser humano. E se arte é a mais pura expressão do estado de alma de cada um de nós, então, ela não terá se acabado. O assunto não se esgota aqui. Voltarei a falar sobre a função social da arte.