O FLUIR-FUGIR-FRIGIR DA ARTE
Pensemos assim. Se, por um lado, a arte nos proporciona prazer estético, a ciência, por outro, providencia a nossa participação imediata e momentânea no processo de construção deste prazer, o que era absolutamente vetado ao espectador na arte clássica. Acabamos, deste modo, como co-autores ou "editores" da obra, através dos intrincados mecanismos lúdicos, educativos e sociais. Mais do que nunca, a arte pertence ao grande público, através da natureza coletiva que a ciência empresta a ela e que, entretanto, está integrada em seus propósitos desde tempos imemoriais. A arte tem lá suas implicações sociais, de grandes amplitudes, a bem da verdade.
O rádio, a fotografia, o cinema, a televisão, o videocassete, a enxurrada de informações que a Internet derrama sobre a sociedade humana tornaram - tornam - estes últimos 40 anos de nossa existência os mais transformadores, no sentido da ruptura. Ruptura com os padrões da arte declaradamente clássica, aquela que se oxigenou, durante séculos, com as atitudes formais, colorísticas e harmônicas das academias, e que tiveram, em última análise, um pezinho na Grécia de Fídias e Péricles.
Pois bem. Ao mesmo tempo em que a ciência, através de tecnologias cada vez mais avançadas, coloca ao alcance do público a obra permitindo-lhe, inclusive, interação, a ciência, também acaba proporcionando a sua - obra - fragmentação, pois se se pode - e a partir de agora, deve-se - participar, pode-se, igualmente, modificar.
A liberdade que se tem para "quebrar" a unidade da obra de arte, ainda que esta não tenha sido criada com tal unidade, é tangível, é permitida.
Essa possibilidade, que tende ao infinito por múltiplas propostas, é caracterizada pelo seu sincretismo cultural, pela perda sutil mas progressiva de sua unidade lógica, cartesiana - clássica, no melhor sentido da palavra.
A descontinuidade da fluência do texto, da métrica musical, do rigor colorístico e formal, pela manipulação espaço-temporal que os controles remotos do videocassete ou do aparelho de som, que pode subverter a reprodução regular do CD, pelo telefone que coloca o espectador em linha direta com as redes de tevê, permitindo-lhe a participação na trama e de seu desfecho, pelos tantos "www ponto qualquer coisa" que a Internet traz até nossa casa, são responsáveis, em parte, pela transformação do mundo moderno.
A arte contemporânea dá sinais claros que as formas de transmissão de conhecimento e informação estão em crise. Um novo modelo haverá de emanar deste caldeirão antropofágico - nossa! E que grandes dimensões tem esta panela... -, no qual percebe-se não as transições estéticas de estilos tais como os conhecemos, classicismo, barroco, romantismo etc. mas, de verdade, uma nova estrutura nas relações humanas, baseadas na fragmentação da realidade, histórica e artística. Nascerá, segundo muitos, a arte do homo frigidus...
Pensando bem, o que vem por aí, não é um caldeirão, mas uma frigideira.