MESOPOTÂMIA E EGITO
A moçada da pedra lascada, uns dez mil anos antes de Cristo, começa a morar pertinho, entre si. Uns arremedos de cidade aparecem. A agricultura e pecuária estão com tudo. Formas rudimentares de trabalho surgem. E os artistas perdem o privilegiado posto de mágicos poderosos da turma e passam a ser propriedade de homens de prestígio. De certa forma, isso amplia os horizontes técnicos e plásticos, pois sua produção passa a ser trocada por outras formas de arte, por ovos, metais e pedras, através dos mercadores, em outras regiões. O quadrilátero modelado pelos rios Nilo, Tigre e Eufrates e mais o Mar Vermelho, sempre primou pelas disputas acirradas, entre seus povos. Ali, na Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque - é, aquele mesmo que peitou os Estados Unidos, em 91, e agora, em 2000 e tanto...- era um tal de irmão brigar contra irmão... até hoje é assim. Cada um queria — quer — a melhor parte dos desertos, quer dizer, da terras mais férteis. Tinha o Hamurabi, aquele do código, Nabucodonosor, o louco, Gilgamesh, o herói. Mas as datas são sempre incertas. Parece que foi por causa de um bendito dilúvio, que ninguém sabe se teve mesmo, ou não. Ali, dizem, foi o berço da escrita ocidental. Na Mesopotâmia, a escrita cuneiforme. No Egito, os hieróglifos, uns desenhos bem feitos, organizados, que representavam o modo de vida dos faraós, dos altos funcionários e do povo. Tinha desde cenas cotidianas e festas até caçadas a leões e hipopótamos, e batalhas. Os faraós e os figurões eram retratados em maior escala. Claro que os escravos ficavam pequenininhos. Os hieróglifos eram decorativos e bonitos e pareciam mais com pintura que com escrita. Mas as letras não são senão desenhos que se sintetizaram até parecer com o que entendemos por escrita, hoje.
Se comparada à arte egípcia, a mesopotâmica fica a dever, em qualidade e expressão formal e estilística. Nota-se isto mais claramente na escultura. É que não havia muita pedra por lá. Ficavam na dependência dos comerciantes. Tinham que encomendar e esperar. Isso quando elas vinham. Ainda não havia SEDEX. Parece que tinha um tal de PEDREX, mas não se sabe, ao certo, se funcionava direito. Os mercadores eram meio marretas. Davam cada cano...
Ah! Mas eles — fenícios, iranianos, palestinos, persas, sírios — eram bons na fundição do bronze e do ouro. E seus desenhos nos tijolos de barro, geometrizados e pintados em azul, branco, amarelo e vermelho eram bonitos mesmo. Tinham também uns sinetes de metal e pedra — o selo deles — com a decoração distribuída por sobre todo o corpo cilíndrico, contando histórias sobre suas conquistas. Arruaceiros, adoravam uma brigazinha. Falavam assim, grosso: "- Vamos ver quem tem a maior espada..." coisas de machão.
Sua preocupação era com a defesa de suas cidades e com o culto aos seus deuses. Além de canalizar rios, construíam muros parrudos e altos e as entradas tinham uns portões pesados e eram povoadas por animais estranhos, touros com asas, com duas cabeças, leões apavorantes. Para meter medo mesmo aos inimigos. Os assírios é que gostavam disso. A célebre Porta dos Leões, na cidade de Ishtar é prova disso. Para os deuses, levantavam os "zigurates", um negócio parecido com uma pirâmide em cima da outra, feitas com tijolos de barro. E lá no alto, erguiam uma capela.
A pintura, pintura, é pouco conhecida. E se sobrou alguma coisa, pode-se ver grande influência da arte do Egito. Lá sim, é que a coisa andava bem.
Toda a arte egípcia se baseia na pedra e em sua eternidade. E se não tinha pedra, mandavam buscar. Porque os faraós podiam tudo. Ninguém mandava mais que eles. Eram os deuses em forma de gente, a encarnação de Hórus, o falcão. Os coitados dos escravos é que penavam. Construíam, durante cinqüenta, setenta anos, uma pirâmide. À vezes, o dono dela já estava até morto, e a construção andando. E elas jamais foram igualadas em imponência e originalidade reconhecendo-se, óbvio, a precariedade técnica da época, que é chamada de Antigo Império. Dentro das pirâmides, tesouros riquíssimos. Jóias, mobiliário, madeiras decoradas, perfumes. Mais rica ainda é a arte. Pinturas, esculturas, baixos-relevos e ornamentos estupendos. Pois achavam que o morto continuava vivendo. E vivendo bem, entre seus objetos pessoais, suas comidas preferidas. Então, enterravam tudo junto com o defuntão, a tal da múmia. Faziam até mesmo uma escultura, geralmente em pedra duríssima que o representasse, caso o corpo fosse roubado. Era o "duplo". Cumpria a função de guardião espiritual. Enfiavam também debaixo do braço do falecido, um livro todo desenhado - textos, em forma de desenho, lembra o nome? - o "Livro dos Mortos", para que fosse aberto e lido na frente de Osíris, o juizão do Além. Portanto, o artista que desenhava este livro tinha que dar o melhor de sua arte para representar bem o patrão diante dos deuses.
As maiores pirâmides são as de Quéops, Quéfrem - a da esfinge - e Miquerinos. Todas na planície de Gizé, com alturas respectivas de 148, 126 e 60 metros. Milhões de blocos de pedra foram utilizados. Mais tarde, quando já não havia mais escravo - Charlton Heston tirou todos de lá, no filme "Os Dez Mandamentos", lembra? - começaram a fazer templos, os hipogeus, na rocha viva. No Vale dos Reis, perto de Tebas, tem muito templo escavado assim. Gastava-se menos dinheiro e tempo.
O engraçado é que tudo no Egito tem uma serenidade e uma calma impressionantes. Eternas. Quando se olha uma escultura, por exemplo, parece que o tempo não passa. Não há dinamismo, em suas arquitetura e escultura, como na Grécia. Em cenas pintadas, vai lá. E mesmo assim, dentro de rígidos padrões de simetria e composição. Às esculturas e relevos pintados interessavam a síntese, sem quaisquer detalhes desnecessários. Os animais, não. Eram representados naturalisticamente. Para a pintura e escultura em baixo-relevo do corpo humano, havia até mesmo uma lei, a "Lei da Frontalidade". Pros egípcios, algumas partes do corpo humano eram melhor vistas de perfil, e outras, de frente. Não usavam também a perspectiva. Representavam as distâncias em relação ao observador sobrepondo as cenas em faixas horizontais. Mais uma característica: o profundo racionalismo. Não houve ruptura completa com o conceitualismo neolítico.
Lá pela 18ª Dinastia, a de Aknathon, houve uma rebelião contra os padrões estabelecidos. E foi uma loucura. Era artista esculpindo o homem de frente e não de perfil, sacerdotes querendo a cabeça dos coitados dos artistas por causa disto... Acabaram com as imagens do Amon Ra, o sol, mudaram-se de Tebas... mas a rebelião formal, apesar de importante, não foi muito longe, não; trataram de restabelecer logo, a ordem. Neste período tem muita pintura. Pois ela se separa dos baixos-relevos, e deles se emancipa definitivamente. A técnica empregada é o afresco, que é a pintura feita em massa de reboco ainda úmida. Continua não havendo perspectiva e a falta de ilusão de profundidade e de volumetria não tem nada a ver com a falta de capacidade técnica. Tudo é intencional, já que o abstracionismo sempre esteve às voltas com a arte egípcia. Originalíssimos, em outras artes. Quase todos os adornos, como jóias, braceletes, colares e mesmo os móveis que conhecemos hoje, foram eles que criaram. Na dança, nos legaram a deliciosa "Dança do Ventre". Na música, a escala de cinco tons, a "pentatônica", usada até hoje, pelos roqueiros.
A sua arte foi feita para durar. Mais de 6.000 anos já se passaram, e suas criações se mostram ainda imponentes, belas e inacessíveis. Um monte de filmes mostra sua cultura. Sua história já rendeu prêmios a atores e diretores, e Hollywood ganhou fama e fortuna com as pirâmides e suas múmias.
Eis alguns filmes: Cleópatra, Morte sobre o Nilo, A Maldição da Múmia, o Segredo da Pirâmide, a Câmara dos Horrores do Abominável Dr. Phibes, Os Dez Mandamentos, Os Caçadores da Arca Perdida. Alguns destes filmes você encontrará nas locadoras.
Eis alguns atores: meus queridos Vincent Price e Charlton Heston, Elizabeth Taylor, Boris Karloff, Cristopher Lee, Sean Connery, Harrison Ford.
Muito mistério ainda ronda aquele povo. Mas o tempo dá conta dos maiores recados e isso quer dizer que mais gente está a fim de aparecer nas páginas da História e nas páginas do Página de Idéias.
Então, uma moçada, de cabeça boa e corpo bonito, que era louca para contar umas lorotas mitológicas, que gostava de comer azeitona e cabeça de sardinha assada enquanto filosofava e fazia teatro, que adorava esporte e que costumava dizer que o povo é quem manda, apareceu.