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Desembarcamos em plena cracolândia. Logo divisamos um grupo de jovens se drogando no meio do Largo General Osório. Uma mulher, andar cambaleante, envelhecida para a idade, colou em nós. No espaço entre o carro e a entrada da Estação Pinacoteca resumiu sua história: precisava de dinheiro para resgatar os filhos do Conselho Tutelar. (Ponto) Da bilheteria ao segundo andar foi um instante. Seu nome era Andrew Warhola, filho de pais imigrantes da Tchecoslováquia, quando ela ainda existia. Ficou mundialmente conhecido como Andy Warhol, um dos maiores artistas da pop art. Ficou mundialmente conhecido pelas serigrafias de celebridades. Aliás, ele foi um dos responsáveis pelo conceito de celebridade, conforme o conhecemos. Retratou Mao, Marilyn Monroe, Mick Jagger, Liz Taylor. Fotografava, pintava sobre fotografias, multiplicava ao infinito, desdobrava. Pintou sobre telas produtos industrializados: garrafas de Coca Cola, caixas de ketchup Heinz, as famosas latas de sopa Campbell´s. Fez auto-retratos. Usava câmeras Polaroid. Um desses auto-retratos foi vendido na semana passada a um colecionador por 32 milhões de dólares. Um de seus lemas era: a arte é mais bela com dinheiro. Desenhou dinheiro. Repetiu à exaustão notas de um dólar. E de dois dólares também. Repetia e se repetia. Tudo isso está na Estação Pinacoteca em São Paulo: Andy Warhol, Mr America. Tudo isso poderia fazer supor um artista inconseqüente, superficial e até se questionar: é isso um artista? Ele fora desenhista publicitário e produzira anúncios e vitrines. Mas seus retratos impressionam. A cabeça de Mao é sombria, assim como a de Nixon. As cores são sombrias. Quase dá pra sentir a presença de Satanás. Elvis é um pistoleiro de arma em punho. Duplicado, triplicado. Foices e martelos compõem suas naturezas mortas em preto e vermelho intensos. É chocante sua série sobre cadeiras elétricas. Denominadas, simplesmente, Cadeira Elétrica ou Acidente Duplo Prateado, mostram uma sala vazia, escura, com uma cadeira de execuções no centro. No fundo uma placa: Silêncio. A sensação que desperta é uma só: solidão. O ser humano e sua solidão na hora da morte. Só que ali no mundo de Andy Warhol a morte é com hora marcada. Bem marcada. Warhol é assim. Superficial e intrigante. Pode retratar Lênin e uma vaca. Suas serigrafias de acidentes de automóveis também impressionam, com seus carros em chamas, corpos inertes, espíritos se desprendendo. Como também a fotografia do homem negro atacado por cães atiçados por policiais brancos. É seu Tumulto Racial Vermelho. Marcante também é a série Atomic Bomb, uma grande pintura acrílica sobre tela. São 25 quadros em preto e vermelho. É a bomba em plena ação. Do equilíbrio entre o preto e o vermelho dos primeiros quadros, tudo vai escurecendo. No fim sobra quase só o preto, a escuridão. Como pensava Freud, para Warhol o instinto de destruição vence. O mundo é assim. Quando deixamos a Estação Pinacoteca o Largo General Osório estava quase vazio. Leia
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