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O vôo da águia


Tudo se relaciona. A tese é discutida no livro de Leonardo Boff, O Despertar da Águia (Editora Vozes); retomada e aprofundamento de A Águia e a Galinha. O fato de figurar na lista dos livros mais vendidos é indicativo da forte demanda por esse tipo de reflexão. Em suas páginas Leonardo vislumbra o surgimento de uma nova civilização “mais sintonizada com a lei fundamental do universo que é a panrelacionalidade, a sinergia e a complementaridade. Será a civilização da re-ligação de tudo com tudo e de todos com todos”. O pensamento não é original, mas é retomado aqui com muita clareza e como uma saída ( a saída) possível para nossa civilização sem horizontes, dominada por tanatos, o instinto de destruição. Quando fala em globalização, por exemplo, Boff acentua a tônica competitiva, que envolve esta sociedade mundial na atualidade e assevera que ela dará lugar a uma globalização cooperativa, “estruturada ao redor da produção do suficiente para todos”. Segundo sua análise, as bases sobre as quais se assenta a globalização competitiva de hoje são poderosas, mas caóticas, excludentes e destrutivas. Deverão dar lugar a outro processo, mais integrativo, inclusivo e construtivo. Porque homem e universo constituem-se dialeticamente e esta dialética implica no reconhecimento das pessoas, em qualquer parte do mundo e sob qualquer condição social, como “sujeitos de direitos incondicionais” e sob o signo da “compaixão universal”. Para Boff esse processo deve instaurar novas relações entre os homens, “não mais na forma de dominação/exploração sobre as pessoas e a natureza, mas na forma da mutualidade e da colaboração entre todos os povos”. Miragem? O próprio autor faz o alerta: “ou criamos nova luz ou vamos ao encontro das trevas”. O planeta sofre terrivelmente o esgotamento irresponsável dos recursos naturais. Várias espécies animais e vegetais estão em extinção, áreas gigantescas de florestas são dizimadas e desertificadas. O lixo, cada vez mais perigoso, pois mais tóxico, acumula-se em amontoados sem fim. As grandes cidades já não têm onde colocar suas milhares de toneladas de lixo produzidas diariamente e a água envenenada constitui um dos grandes desafios futuros. Há esperança? Boff responde: sim. E completa: nos insatisfeitos com a situação atual, nos portadores dos sonhos e utopias, naqueles que “irradiam uma nova vitalidade em tudo o que pensam, projetam, fazem e celebram”. Nos que ousam organizar suas vidas em torno de certos valores e práticas, em certa “veneração do Mistério”. Essas pessoas existem e estão espalhadas por toda a superfície da terra, trabalhando na edificação da nova civilização planetária, sob o signo da solidariedade, do respeito e da valorização de cada ser. São águias, e começam a preparar o vôo.

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Paulo Palladini