Voltar - Paulo Palladini

Voltei!

Voltei. Depois de quase três meses afastado dessas páginas. Os leitores, obviamente, estranharam minha ausência. Alguns me perguntavam nas ruas, outros por correio digital. Desapareci sem deixar vestígio. Nenhum problema. Apenas a dificuldade de conciliar várias atividades ao mesmo tempo. Quando isso acontece, muitas vezes acabamos por sacrificar o que mais gostamos. Esse é o caso. Gosto de escrever, gosto do contato semanal com os leitores, gosto de suas indagações e confirmações. Então, há dias, senti forte desejo de voltar, retomar tudo isso. Mesmo com dificuldade. Na semana passada encontrei Carlinhos Munhoz. Ele me disse: Você é o titular da ponta esquerda, quando quiser voltar é só avisar. Voltei, não na ponta esquerda, mais para meiocampista, discretamente inclinado para a esquerda.
Marina. E aqui, digitando esse texto, deparei-me com a entrevista da senadora Marina Silva na revista Veja. Fui tocado pelas suas palavras, principalmente quando delineou seu projeto político, expressando o desejo de ser uma “mantenedora de utopias”. Alinhou os mantenedores de utopias que foram referência para ela: Chico Mendes, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso. Ponderada que é ela não rejeita a política atual pelo ângulo da moralidade, mas pelo modelo de progresso que destrói a natureza. Quer para o país e para o mundo um “desenvolvimento sustentável”. A senadora Marina reafirmou-se como mulher de fé, mas que aceita os resultados das pesquisas científicas: “Não é preciso contrapor a ciência à religião”. Grandes são aqueles que alçam o olhar e enxergam longe. Marina enxerga longe.
Coelho de Moraes. Outra entrevista que li na semana foi a de Coelho de Moraes para A Mococa. Ativista cultural multimeios ele está lançando o livro Marcus, o imortal, um presente para os leitores em PDF. Já está disponível na internet. Segundo o autor, também estudante de filosofia, o livro é uma obra de ficção ambientada na Idade Média, e serve de introdução “no universo da reflexão filosófica”. Coelho de Moraes chama nossa atenção para esses novos meios e compara: um livro digital pode conter até 200 livros impressos em papel. Toda a sua biblioteca pessoal de 2000 livros caberia em apenas 10 desses e-book. Menos papel, menos árvores abatidas. Ele acredita que o “livro-fetiche” - de papel – esteja com os dias contados. Na Fatec, onde desenvolve seu trabalho, Coelho fez duas coletâneas de livros falados, com fundo musical de sua autoria ( Ele também é músico, compositor, maestro). Marco Antônio, o imortal. Prometo lê-lo.
Construir um bandoneon. Los hermanos criaram o tango, os alemães o bandoneon. Dezenas de milhares desses instrumentos foram importados pela Argentina, e deram fôlego ao desenvolvimento do tango. Um ficou indissociável do outro. Os mais conhecidos músicos de tango são bandoneonistas. Acontece que os vizinhos não fabricam os instrumentos e, com o tempo, estes começaram a escassear, vendidos para turistas e colecionadores europeus e japoneses. Por isso los hermanos querem transformar o bandoneon em patrimônio cultural. Estão discutindo uma lei para proteger o instrumento. Oscar Fisher, presidente da Casa do Bandoneon, foi além: resolveu produzir um, só para provar que isso é possível: “enquanto muitos argentinos apostam em ganhar dinheiro com o dólar, eu aposto em construir um bandoneon”.
Figueira. Ante meus olhos passaram muitas figueiras. Todas foram derrubadas, em nome de alguma lei. Há leis de amparo para todos os derrubamentos. A majestosa árvore do Jardim Morro Azul tem mais de 200 anos. Quero uma lei que a faça parar de pé.

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Paulo Palladini