Voltar - Paulo Palladini


Vi a vila

Como o rato roeu a roupa eu vi a vila. A vila é The Village, filme de 2004 do diretor indiano Night Shyamalan. Nos fins do século XIX um grupo de 60 pessoas habita uma vila isolada no interior dos Estados Unidos: Covington. Tentam criar ali uma sociedade harmônica, não violenta, em tudo diferente das cidades. Todos trazem histórias de violência em suas vidas nos tempos em que moravam nas cidades. Querem limpar suas memórias e viver um presente renovado. Isso tem um custo: o confinamento dentro de certo espaço geográfico, cujos limites não podem ser ultrapassados. O lugar fica no meio de uma floresta que, segundo a lenda, é habitada por seres tão misteriosos como perigosos. Por isso uma das regras é não entrar na floresta. Lucius Hunt é o único que não tem medo e desafia a proibição. É o que será ferido de morte. Apaixonada por ele Ivy Walker, jovem, bonita e cega, é filha do líder Edward Walker. Um dia, quando ela decide atravessar a floresta para buscar o remédio que salvaria Lucius, o pai mostra-lhe que não há nada a temer. Para manter a paz na vila os anciãos criaram o mito da floresta e seus seres. O medo do desconhecido lá de fora permitia manter a harmonia interna. A aldeia isolada é a portadora da vida boa e tranqüila, pura e inocente. O horror existe lá fora; para os habitantes lá fora significa outro tempo e outro lugar. Mesmo quando a violência surge no meio deles, quando um dos habitantes, o desequilibrado Noah,Percy, por ciúme de Ivy, esfaqueia Lucius, os anciãos negam a realidade. Atribuem a agressão aos seres da floresta, “aqueles de quem não podemos falar”. Assim o mito é mantido para a garantia da ordem interna e do propósito isolacionista dos habitantes da vila. A floresta, na verdade, é uma reserva natural dos tempos atuais; a vila é apenas uma utopia edificada sobre um mito, o qual funciona como uma espécie de religião. O medo tem aí papel fundamental; é a liga de tudo com tudo. Refugiaram-se ali por medo. Para não caírem na tentação da fuga alimentam o medo pelos seres imaginários da floresta. Só existe segurança no seu interior. Os anciãos, aqueles que detêm o conhecimento e não são tocados pelo medo, sabem que tais seres não existem. São meras criaturas imaginárias, cuja presença na floresta mantém o equilíbrio e a segurança entre os habitantes. Quando a violência irrompe e a floresta deve ser enfrentada, os líderes não vacilam na consolidação da farsa e usam as situações deflagradas para reforçar o mito. Quem conhece o segredo usa-o para preservar o pacto originário: jamais voltar nem permitir a volta às cidades de nenhum dos habitantes da vila. Sem atravessar a floresta ninguém conseguirá retornar. Há mitos fora desse de Covington, que nos impedem atravessar fronteiras. Acreditamos ser o nosso mundinho o melhor dos mundos, o esplêndido isolamento, que tudo pacifica, tudo harmoniza. Ilusão. Farsa consentida. Como os habitantes de Covington, refugiamo-nos em nossas vilas por medo; por outros medos refutamos deixá-las. Nada esperemos, isso deve ser mesmo o melhor que o mundo pode oferecer.

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Paulo Palladini