Voltar - Paulo Palladini


Valdo França visitou Mococa

Depois de longa temporada ausente, meu amigo Valdo França visitou Mococa outra vez. Veio divulgar seu projeto de turismo solidário. O trabalho, que desenvolve atualmente, está voltado para as comunidades quilombolas. No Brasil devem existir entre 1000 e 2000 remanescentes de quilombos, distribuídos por todo o território nacional. Desses, 71 são objetos de estudos e intervenções. Essas comunidades, formadas por descendentes de escravos foragidos, têm uma cultura própria, ocupam determinado território, mas não tem a posse da terra. Por isso vivem em clima de instabilidade, pressionados por fazendeiros e empresas. O Estado reconhece seu direito à terra e, tanto seu patrimônio material como o imaterial, estão sujeitos à proteção legal. Mas há uma grande distância entre os dispositivos legais e a realidade das comunidades quilombolas. Parte do trabalho de Valdo França é mediar conflitos de interesses nas regiões dos quilombos. E com isso garantir a preservação desse rico patrimônio. Procura também introduzir certas tecnologias, que melhorem a vida das comunidades sem violar sua cultura. Embora muitas delas estejam localizadas em meio à abundância de água, como aquelas da região do rio Trombetas, na Amazônia, falta água de qualidade, limpa, própria para o consumo. Valdo também se preocupa com o destino dos dejetos humanos, pois nesses locais não existe rede de esgoto nem fossas. Ele avalia que nem seria conveniente a implantação de redes como as das cidades. O que ele preconiza ali é o banheiro seco, que colhe as fezes sem a utilização de água, e ainda as transforma em adubo através de processamento simples. Assim, num só lance, resolve vários problemas: a falta de saneamento, o destino dos dejetos (que assim não poluem o meio ambiente), e o reaproveitamento do material, dando-lhe nova finalidade. Além disso tudo ele está desenvolvendo um projeto de turismo solidário junto dessas comunidades, que sofrem com a falta crônica de recursos financeiros. Grupos de doze a quinze pessoas, acompanhadas de orientadores-guias, passam duas ou três semanas num quilombo. O programa prevê troca de experiências entre os visitantes e os quilombolas. Interação. O elemento urbano leva algo para lá que é assimilado; ao mesmo tempo absorve muito daquela atmosfera e cultura. É tocado por aquela experiência, e ainda desfruta da contemplação das belezas naturais do lugar. Uma troca bastante interessante e enriquecedora. Valdo, que mora em Brasília, é engenheiro agrônomo e militante do meio ambiente. Organizou os simpósios Alternativas Contra a Fome, colaborou no combate à desnutrição infantil, criou e dirigiu a ELAE (Escola Livre de Agricultura Ecológica), ministrou cursos, desenvolveu projetos de controle de pragas agrícolas em vários países africanos (sem o uso de agrotóxicos), trabalhou com reciclagem de materiais do lixo, ajudou na organização nacional dos catadores em cooperativas. Agora, prepara material para apresentar no próximo Fórum Social Mundial. Antes de deixar Mococa visitou o Caps-ad (Centro de Atenção Psicossocial) para dependentes químicos, e deu algumas idéias para oficinas terapêuticas. Prometeu voltar.

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Paulo Palladini