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Recebi, tempos atrás, das mãos de minha prima Emir uma folha de papel: era um passaporte. Fora emitido em nome do rei Umberto I da Itália no ano de 1891. “Pela graça de Deus e vontade da Nação”. Com ele na bagagem meus bisavós maternos deixaram a terra natal, Comune di Villamarzana na província de Rovigo e cruzaram o Atlântico em direção ao Brasil. Tudo registrado no documento. O carimbo na parte superior direita indica o local do embarque no porto de Gênova, o mesmo que, quatrocentos anos antes, lançara Colombo aos mares. A viagem começou em junho de 1891; o passaporte traz a data do dia 14. Legalmente autorizava a viagem de Francesco Nalio, meu bisavô, sua mulher Elisabetta Brandolese, a bisavó e o filho do casal Cesare Domenico, de apenas dois anos de idade, meu avô. Ele nascera em 18 de julho de 1889, ano da proclamação da República no Brasil. Desembarcaram no porto de Santos depois de um mês. Carimbo no meio da folha data a entrada na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo, destino comum dos italianos que aqui chegavam: 18 de julho de 1891. Tinha meu bisavô, então, 27 anos. Fico imaginando a difícil decisão de partir, provavelmente tomada depois de dias e noites de angústia e incertezas, a aflitiva situação econômica da Itália. Penso na despedida dos parentes, no último olhar lançado sobre a vila; no caminho sem volta. Nunca mais veriam a península de novo. Nunca mais sentiriam o perfume dos campos no verão, nem o vento e o frio mediterrâneos. Para eles a língua de Dante ecoaria cada vez mais longe. Penso no pequeno Cesare, já em São Paulo, correndo daqui para lá na hospedaria, sem destino, junto de outras crianças, filhas de imigrantes como ele. E sem nada entender dos rumos da vida. Ficassem na Itália tudo seria diferente. A terra, o vento, o céu, o mar. De um país de história e cultura milenares vieram dar em outro que mal rascunhava seu perfil. A pátria estranha será sempre estranha no coração de quem chega e deixa para trás outro mundo e outra história. O Brasil era país que mal nascia e apenas três anos antes abolira a escravatura. A imigração de trabalhadores estrangeiros vinha suprir as lacunas deixadas pela mão de obra escrava, que abandonava o campo. Homens e mulheres traziam no corpo o sonho da aventura e davam com a difícil realidade das fazendas de café. Meu bisavô foi para Campinas e aos poucos se integrando, assimilando a nova língua e os costumes tropicais, se adaptando ao novo clima. Não abandonou o hábito do vinho nem o gosto pela pasta. No trabalho Cesare crescia. Foi em Campinas que conheceu Carolina, minha avó, da família Dellena, origem italiana como a dele. Ali casaram-se, vieram para Mococa, onde tiveram nove filhos; entre eles minha mãe. Deixou-me de herança metade do nome, Cesare Nalio, e agora esta folha de papel, o pasaporto, o qual me incita a refazer o impossível caminho de volta, o improvável retorno, por mares já antes navegados, à península originária. Leia
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