Voltar - Paulo Palladini

Teatro da resistência de Jefferson Zanchi

Depois de muitos anos reencontro meu amigo Jefferson Zanchi. Ele veio à cidade apresentar a brechtiana O mendigo ou o cão morto, que representará Mococa no Mapa Cultural Paulista. Foi bom vê-lo no palco de novo, Imperador encarnado, empunhando uma espada e cortando cabeças; um riso sarcástico sem igual. Há três décadas ele dirige o Grupo de Teatro Experimental Qorpo Santo, teatro amador muito do profissional; da melhor qualidade. Como diretor teatral Jeffinho é um daqueles resistentes e resilientes, duro e flexível, que enfrenta chuvas de canivetes e trovoadas ensurdecedoras. Puro teatro da resistência. Ele e seu Qorpo Santo se apresentaram na reinauguração do Teatro Municipal “Pedro Ângelo Camin” de Mococa, para exercitar nossa musculatura dramática e desentupir nossas veias semicômicas. Foi mais uma aula de fala e expressão através da tessitura sutil e bem delineada do dramaturgo alemão. Tais escolhas confirmam a permanência de Jeffinho no campo ideológico, embora não seja esta a peça mais à esquerda do espectro brechtiano. Ali está em andrajos o Mendigo à porta da cidade, quando se aproxima o Imperador no seu trono de rodas, orgulhoso dos triunfos militares que acabara de encetar. Para o Mendigo pouco lhe importa a glória do outro, despreza-a e ridiculariza-a. A morte do seu cão importa mais que todas as vitórias e conquistas do Imperador. Ele debocha daquilo que todos veneram: o poder e a gloria. Desdenha. O cão amoroso não, este merece todas as honras e todos os prantos. Afeto, negação da sociedade do espetáculo, de quinze minutos de fama, de celebridades vazias de conteúdo, invólucros sem substancia, casca sem semente, pele sobre ossos. Pele e osso. Morreu em Paris, durante a semana, aos 100 anos de idade, Claude Lévi-Strauss, importante pensador, dos mais importantes cientistas sociais, antropólogo, autor de Tristes Trópicos e outros tantos textos seminais. Foi o principal expoente de uma corrente de pensamento: o estruturalismo. Professor reconhecido mundialmente, autor de idéias, pesquisas e obras originais, o grande antropólogo, por opção sua e de sua família, foi enterrado sem nenhuma pompa, longe das luzes e da curiosidade alheia. Longe da imprensa. Hoje a imagem é tudo; o que não pode ser transformado em imagem, simplesmente não existe. Comparemos, então, o velório de Levi-Strauss com outro recente, celebridade pop, encaixotado em ouro, estádio lotado, grandioso espetáculo midiático. Nem sabemos se no fundo da urna dourada dormia mesmo o pequeno imperador. É para salvar-nos desta pasmaceira que existe um Claude Lévi-Strauss centenário andando por aí. Uma resposta à mediocridade. Todos os sinais estão trocados. Enaltecidas são as figuras coloridas e brilhantes, de um brilho artificial e conteúdo zero. Pelo menos na peça de Brecht o Imperador tem o que mostrar, mesmo que cabeças cortadas e sarcasmo. Fez suas conquistas. Na sociedade vazia as pessoas querem antes receber sem nada oferecer, buscam o reconhecimento sem nada terem realizado: Eis-me aqui, um nada, o zero das esquerdas. Louvem-me, mostrem minha cara para o mundo!

PS: Acompanharam Jeffinho nesta veloz jornada noite adentro o mendigo Fábio Vieira, o bobo Ricardo Salles e o Público. Nas duas noites anteriores o Grupo de Dança e Expressão do Teatro Municipal dançou Se você soubesse... e o Grupo Folclórico Raízes apresentou O Brasileirinho.

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Paulo Palladini