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- Paulo Palladini
Sociedade sem manicômio
Antes uma data importante, o dia 13 de maio, hoje, mal é lembrado.
Foi nesse dia que a Princesa Isabel assinou a lei que acabava com a escravidão
no Brasil. Com a influência crescente dos movimentos negros no processo
social e civilizatório brasileiro, a figura de Zumbi dos Palmares
passou a ganhar maior relevância e o dia 20 de novembro passou a
simbolizar melhor a luta pela abolição da escravatura. Esta
inflexão focalizou a participação dos negros em sua
própria libertação, afinal Zumbi era um escravo foragido,
que organizou a resistência a partir dos quilombos. Com isso os
movimentos negros quiseram enfatizar que o fim do regime escravocrata
não foi um ato benevolente da princesa ou do grupo político
dominante. Bem, o dia 18 de maio marca outro movimento de libertação:
aquele que colocou o dedo em outra ferida social. O cuidado dispensado
às pessoas acometidas por desordens mentais em hospitais psiquiátricos.
O Movimento de Luta Antimanicomial, desde 1987, posiciona-se por uma sociedade
sem manicômios. Integrado à reforma psiquiátrica e
um de seus grandes apoiadores prega a abolição total dos
hospitais psiquiátricos. Este espírito estava presente no
projeto de lei apresentado ao Congresso Nacional em 1989 pelo então
deputado Paulo Delgado. Depois de 12 anos um substitutivo foi finalmente
aprovado, no que se tornou a lei 10.216, a lei da Reforma Psiquiátrica.
Menos radical que as posições de Delgado e do Movimento
Anti-manicomial, a Lei em vigor no Brasil estabelece os direitos sociais
dos portadores de transtornos mentais e propõe serviços
substitutivos à internação psiquiátrica em
hospitais especializados. Ao longo de 10 anos houve significativa redução
de leitos e a criação de serviços substitutivos,
em particular Caps (centros de atenção psicossocial) e residências
terapêuticas. Os primeiros são centros integrados para o
acolhimento de pacientes com qualquer sofrimento psíquico e em
qualquer gravidade. Os segundos são moradias protegidas para pacientes,
que foram abandonados em instituições psiquiátricas,
mas tem condições de convívio social. Minha avaliação
da Reforma é muito positiva, embora seu processo de implantação
receba muitas críticas. Em parte isso ocorre porque os serviços
não conseguem ser plenamente substitutivos; e em parte porque sua
criação não acompanha o ritmo de desativação
de leitos. Nossa experiência no Projeto Santa Luzia, em Mococa,
mostra isso. Conseguimos implantar todos os serviços preconizados
pela Lei 10.216, porque temos forte apoio do poder público municipal.
Um dos motivos da lentidão de implantação da Lei
é que a iniciativa deve ser municipal; nem todos os prefeitos e
municípios são sensíveis à questão.
Ao mesmo tempo, embora tenhamos diminuído bastante as internações
psiquiátricas, ainda encaminhamos pacientes para hospitais especializados.
Nossa meta é internação zero. Vamos transformar o
Caps ad (para dependentes químicos) em Caps ad III, funcionando
24 horas por dia, ininterruptamente, e otimizar o uso de leitos no hospital
geral da Santa Casa. Não acredito que mais internações
psiquiátricas especializadas possam responder melhor às
demandas atuais como as dos dependentes químicos. Sei que o binômio
drogas-criminalidade alarma-nos como cidadãos. Porém não
podemos buscar respostas num sistema que já se mostrou obsoleto
- em muitos casos desumano - e criou mais problemas que soluções:
a segregação em manicômios de pessoas acometidas por
transtornos mentais.
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Paulo Palladini
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