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- Paulo Palladini
A
saga de John Nash
Uma mente brilhante,
filme do diretor Ron Howard traz o ator Russell Crowe, o gladiador, no
papel principal. Ele encarna o personagem John Nash, um matemático
americano ganhador do prêmio Nobel de Economia em 1994. Seu brilho
começou na Universidade de Princeton, onde permaneceu até
os dias do filme. Mas no meio de sua excepcional trajetória intelectual
tinha uma doença terrível: a esquizofrenia. A maior parte
do filme é dedicada à luta que empreendeu contra este cruel
e irreversível mal da mente, o próprio símbolo da
loucura. Na sua lida pode contar, desde o início, com a decisiva
ajuda da mulher Alícia, uma ex-aluna com quem se casou. Os delírios
começaram a ganhar forma quando ele foi recrutado para prestar
serviços junto ao governo americano, na época completamente
mergulhado na guerra fria. Sentia-se parte de um projeto secreto, interagia
com personagens imaginários, procurava decifrar códigos
ocultos em revistas e jornais. Forrava as paredes com recortes na tentativa
de descobrir padrões. Tinha idéias de perseguição
onde os russos ocupavam a cena principal. Não distinguia realidade
de delírio. Ele, que sempre fora esquisito e socialmente desajeitado,
foi mergulhando mais e mais num mundo absolutamente pessoal e inacessível.
Certo dia, saiu correndo em meio a uma palestra e foi internado pela primeira
vez. O psiquiatra que vai cuidar dele é John Rosen, de cujo livro
sobre o tratamento das psicoses sem medicamentos, Psicoanalisis directo
(em tradução espanhola), coincidentemente, possuo um exemplar.
John Nash foi tratado inicialmente com o principal método utilizado
na época para a esquizofrenia: a insulinoterapia. Doses crescentes
de insulina eram administradas diariamente aos pacientes até atingirem
o estado de coma, que logo era cortado com glicose endovenosa. O tratamento
era perigoso e os acidentes, muitas vezes, fatais. Como alternativas os
psiquiatras usavam o choque pelo cardiazol e a eletroconvulsoterapia,
menos arriscados, mas igualmente terrificantes para os pacientes. Nas
décadas de 30 e 40 do século passado ainda não havia
medicamentos para as psicoses, que só foram introduzidos no início
dos anos 50 com a descoberta da clorpromazina. Gradativamente os métodos
de choque, denominados tratamentos biológicos, foram sendo abandonados.
No começo da minha carreira no Juqueri conheci pacientes que haviam
sido submetidos a tais métodos e psiquiatras da velha guarda que
ainda os defendiam como tratamentos válidos. John Nash passou por
isso, porém, determinado a subjugar a doença usou o que
tinha de melhor para vencê-la: seus próprios recursos mentais.
Conseguiu, embora não de modo completo. Aprendeu a distinguir seus
delírios dos pensamentos comuns, o que era manifestação
de sua subjetividade do que era a realidade compartilhada com os demais.
Pode, assim, voltar para a universidade. No ambiente que lhe era familiar
e estimulante voltou a produzir. Reconquistou o respeito acadêmico
e ficou conhecido mundialmente ao receber o prêmio Nobel. Tornou-se
uma prova viva de que a doença mental deixa intactas muitas das
capacidades pessoais do paciente, muitas potencialidades a serem despertadas
durante o processo de recuperação. A lição
que fica: reabilitar para a vida social pode ser tão ou mais importante
que manipular remédios.
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Paulo Palladini
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