Voltar - Paulo Palladini

Relembrando o mestre Anibal Silveira


O Centro de Estudos e Pesquisas Aníbal Silveira em São Paulo é dirigido pelo psiquiatra José Gilberto Franco. Fica numa tortuosa e tranquila rua da Vila Mariana, em São Paulo, instalado num agradável sobrado, onde a figura de Dom Quixote é onipresente. Junto de seu escudeiro, Sancho Pança, decora móveis e vitrais, e na forma de esculturas Fui até lá para conversar sobre Silveira, nosso mestre comum, e inteirar-me das atividades do Centro. O Quixote, é certo, representa bem as atividades de um grupo significativo de técnicos da saúde mental, que luta contra as concepções de vento das práticas médicas, psicológicas e sociológicas empobrecidas e reducionistas de hoje. Aníbal Silveira paira acima de tudo isso. Deixou um legado que nossa miopia ideológica ainda não permite avaliar. Foi um grande psiquiatra brasileiro, dos maiores, professor e criador de escola, autor de centenas de trabalhos e contribuições originais no campo da saúde mental. Por onde passou deixou seguidores. Sua pessoa inspirava tanto quanto suas teorias. Contudo, depois de sua morte em 1979 houve a diáspora e a escola se dispersou. Atualmente o pensamento silveiriano sobrevive no trabalho de muitos discípulos espalhados por vários lugares e em algumas instituições, como a Sociedade Rorschach de São Paulo, da qual foi o fundador em 1952. Silveira, além de sistematizador do critério patogenético, é um dos maiores conhecedores do psicodiagnóstico concebido pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach; o mais completo e profundo meio de avaliação da personalidade humana. Ensinou o método desde 1935 no Hospital de Juqueri, e mais tarde no curso de psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Com a fundação da Sociedade, organizou cursos de formação para estudantes e graduados em psicologia e psiquiatria. A base de tudo é a teoria da personalidade desenvolvida por ele a partir de uma epistemologia positiva. Um modelo genético estrutural de personalidade, que serve de diretriz às múltiplas contribuições teóricas em psicologia geral e evolutiva, psicopatologia, neuropatologia e psiquiatria; conforme assevera Lúcia Coelho, discípula e amiga, no prefácio que escreveu para o livro do mestre: Prova de Rorschach, elaboração do psicograma ( Editora Brasileira, São Paulo, 1985). A concepção de personalidade de Silveira pressupõe uma base biológica, genética e encefálica, e um ambiente físico e social onde ela se desenvolve. Para ele não há personalidade sem cérebro nem sem sociedade e cultura. Se falta a base biológica não há o que desenvolver, se falta a base sociológica não há como desenvolver. É uma teoria da personalidade de base encefálica. Tal concepção permitiu-lhe entender a patologia cerebral do psiquiatra alemão Karl Kleist, e estudar profundamente a esquizofrenia e as psicoses degenerativas benignas, as quais rebatizou de psicoses diatéticas. Estas são apenas algumas das contribuições de Aníbal Silveira ao conhecimento psiquiátrico, que incluem inovações metodológicas em várias áreas. Um livro inteiro ainda não faria justiça à significância de sua obra. Entretanto, dei minha contribuição ao publicar Patogênese, uma introdução ao pensamento de Anibal Silveira. Fizemos um belo lançamento na Sociedade Rorschach em São Paulo em março, e repetimos a dose na Casa de Cultura em Mococa ontem. A festa mocoquense integrou a abertura da Semana Universitária e a presença da centenária Filarmônica Mocoquense, patrimônio cultural da cidade, abrindo o evento.

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Paulo Palladini