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- Paulo Palladini
Presentes
Outra semana começa
e já ganho dois presentes. Um me chega de Euclides Coimbra, pintor
e escultor, hoje instalado em Ribeirão Preto. Passou pelo meu local
de trabalho e lá deixou uma tela de sua autoria (“Ao meu
amigo, amigo de meu pai”...): Vida na roça. É uma
cena rural. No primeiro plano uma menina corre atrás de uma galinha,
um cachorrinho acompanha-a. Tanto um bicho como o outro têm ares
assustados. Num segundo plano o casebre descascado; na janela a moça
segura um espelho, na porta a velha segura a bengala. Do lado esquerdo
um menino armado de estilingue prepara-se para atirar; olha para cima,
passarinhos avoam. Há meninos, estilingues e passarinhos na tela
de Euclides. O carro de bois descansa ao lado da casa. O pilão
descansa. Tudo é opaco e terroso. O verde é um verde desbotado.
Há variação de cores apenas nas roupas do varal e
no galo-peito- empinado no terreiro. O clima geral é decadente.
Vida rural não existe mais. A fumaça que escapa pela chaminé
é leve e escassa. Por que a menina corre atrás da galinha?
Que sentido tem esse gesto no mundo de hoje? Se em outros trabalhos Euclides
exibia as cores marcantes do pai, José Coimbra, cuja senda perseguiu,
neste a exuberância cedeu à opacidade e à decadência.
Se o carro de bois já esperou a locomotiva atravessar para seguir
– como em O encontro do progresso com a nostalgia - , agora ele
está encostado ao lado da casa. Não há mais bois.
Correr atrás de galinhas não é brincadeira factível
no mundo atual. As crianças de hoje nunca viram uma galinha, a
não ser fatiada e ensacada numa gôndola de supermercado.
Há uma nostalgia esfumaçada, sem brilho, isto é,
impossível e improvável. Real. Grato, Euclides, por isso.
O outro presente é o blogue do Washington: 256fundos – Obra
Completa de Washington de Moraes. Tão logo li n’A Mococa,
corri para abrir a página. Gostei muito. É louvável
o trabalho de Maycon Alves, Getulio Cardozo, Paulo José Vieira
e Gustavo Leonardi, que, à revelia do próprio autor, colocaram
na rede seus escritos, suas falas, seu canto e suas imagens. No comentário
inserido no blogue Getúlio diz bem sobre Washington: “O que
sabe, o que busca, o que escreve, não tem valor de mercado. As
suas visões místicas não se enquadram no cânone
de qualquer religião. Sempre foi e sempre será um herege
para a religião, para a sociedade, para a família. É
um melancólico porque nada da modernidade o seduz”. Da condição
de perdida sua obra, ora resgatada, é um dos gratificantes achados
desse começo de ano. Palavras como sacripanta e uropígio
integram seu vocabulário. “Não é qualquer sudoríparo
que consegue regurgitar tão hipertrófico bócio”,
escreveu ele. E, num sinal de alerta: “como se sabe, o chumbo mata”.
Mata mesmo. Vale entrar no sítio 256fundos.blogspot.com e ver e
ouvir as coisas desse incrível estudioso dos ideogramas, um multi-línguas,
compositor, contista e poeta: Lá fora venta. Já faz noite
alta. Cá dentro em mim sinto haver uma falta
D´alguma coisa que ao certo não sei.
Talvez seja este ardente desejo
De ver tud´aquilo que não vejo
No intrincado enredo da Lei. Benditos sejam Euclides e Washington.
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Paulo Palladini
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