Voltar - Paulo Palladini

O presente de Assis

Entardecer chuvoso de domingo, 13 de novembro. Teatro Brincante, ali na Rua Purpurina, Vila Madalena. Meu amigo Assis iria fazer o lançamento simultâneo de dois livros seus: Chão e Sonho e Marco Misterioso, ambos pela Dobra Editorial. Somos amigos há 32 anos, desde os tempos de nossa formação em psiquiatria. De lá para cá venho acompanhando todos os passos de seu trabalho cultural. Na década de 1980 associou-se ao escritor Ronaldo Correia de Brito e ao músico Antônio José Madureira, que integrara o Quinteto Armorial, para um projeto de três obras da mais profunda brasilidade: O Baile do Menino Deus,      Bandeira de São João e Arlequim. Respectivamente sobre o ciclo natalino, as festas juninas e o carnaval. Foram registradas em disco e livro. O trio ainda fez Lua Cambará, roteiro, letra e música. Cheguei a assistir a uma versão do filme em media metragem, se não me engano. E o mesmo grupo, acrescido de Antônio Carlos Nóbrega e Ericson Luna, ainda nos brindou com Pavão Misterioso. Nóbrega aparece ali como compositor e interprete. Ele, que também integrou o Quinteto Armorial, organizado por Ariano Suassuna, mais tarde montaria em São Paulo o Teatro Brincante, onde nos encontramos na tarde chuvosa. O próprio apareceu no salão para cumprimentar o amigo e parceiro Assis Lima. Porém, a surpresa maior, para todos os que receberam o convite do lançamento literário, foi o espetáculo primoroso com que nos brindaram. Um grupo grande entre músicos, cantores, bailarinos e atores ocupou o palco do Brincante e leu, cantou, dançou e dramatizou textos dos dois volumes de Assis. Foi o maior presente. Ritmo contagiante alternado com melodias suaves. Corpos em movimento; corpos estáticos. Extáticos. Intensidade dramática na Via Sacra pela morte do filho.  Assis parado no centro do palco guturando, ao final, “uma incelença à estrela madona, alecrim verdadeiro, rosa manjerona. Ô anjo por quem estás esperando? É por esta incelença que está se rezando. Abre-te porta divina, dos campos para o jardim”. Acompanhado de Ana, nossos filhos Paula e Gustavo e da nora Patrícia, assisti a tudo embevecido. Abracei fortemente o amigo, orgulhoso de nossa natureza brasileira. Agradeci sua oferenda, dei passos entre o chão e o sonho.  Tomei um suco com gosto de berimbau, aroma de violoncelo. No caminho de volta para casa, lembrei: em 1984, tendo concluído seu mestrado em psicologia social pela USP - O conto popular no cariri cearense: memória, valores, visão do mundo – Assis publicou a dissertação em livro sob o título Conto Popular e Comunidade Narrativa (Funarte). O texto ganhou o prêmio Silvio Romero e mereceu prefácio de ninguém menos que Antônio Cândido: “Este livro é dos mais valiosos que tenho lido sobre o nosso conto popular”, sentenciou o velho professor de Brasil. Então, para quem não conhece eu apresento: Este é Francisco Assis de Souza Lima, brasileiro, cearense do Crato, médico, psiquiatra e psicanalista, mestre em psicologia social, pesquisador, escritor, poeta, letrista. Amigo.  

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Paulo Palladini