Voltar - Paulo Palladini


Pixinguinha

Escrevo ouvindo Pixinguinha. Não o Pixinguinha de Carinhoso ou de Urubatan das parcerias com João de Barro e Benedito Lacerda. Mas daquele músico e compositor dos fundamentos, enroscado nas origens da musica popular brasileira, nas raizes do samba e do choro. Penso nas parcerias com João da Bahiana e Clementina de Jesus, onde o elemento africano, notadamente a cultura do candomblé, fica mais evidente. Na gravação de Yaô, por exemplo, composição de Pixinguinha e Gastão Vianna, por sobre os vários couros em ritmo frenético, ouvimos a voz rouca de João da Bahiana: Iô Iôô/ No terreiro de preto véio iaiá / vamo saravá / vamo saravá. Enquanto outras vozes perguntam: Pra quem meu Pai? Ao que ele responde: Xangô ô. E modulando melodicamente as vozes de João e Clementina a presença marcante do instrumento do mestre Pixinguinha. Até a década de 40 ele tocava preferencialmente a flauta, mas depois, por dificuldades de embocadura, optou pelo saxofone. Foi do mais agudo ao mais grave. O sax tenor que usava ganhou-o de presente durante uma temporada em Paris com seus Oito Batutas. Foi quando conheceu o jazz. Era 1922. Teve por parceiros e amigos de vida inteira Donga (autor de Pelo Telefone, considerado o primeiro samba gravado) e João da Bahiana. Com este e Clementina de Jesus gravou, por exemplo, Batuque na Cozinha, composição de João. Batuque na cozinha sinhá não qué / por causa do batuque eu queimei meu pé. Nessa gravação Pixinguinha passeia livremente por entre os versos. Àquela altura já detinha a plenitude e o domínio esplêndido do instrumento, que aprendeu a tocar ainda um menino. Músico, compositor, maestro, arranjador. Pixinguinha deu forma ao choro e à musica popular brasileira. A maioria de suas composições é de música instrumental. Se hoje nós podemos falar numa música instrumental brasileira, ele foi o seu pioneiro Ele é o nosso Louis Armstrong, ou Louis é que é o nosso Pixinguinha? Um saiu da África e foi dar no norte, o outro foi dar no sul. Negros e descendentes de escravos. Ambos se encontraram no território livre da música. Em vida chegaram a ter um encontro, se sei, em 1957, promovido pelo presidente Juscelino, quando o músico americano esteve no Rio. Ambos tiraram do chão que pisaram, do ar que respiraram, das visões que tiveram, os elementos de sua arte. Mas tanto o sopro de um como o sopro do outro nasceram daquela profundeza, onde tudo é amálgama: a mãe África (não nos esqueçamos, sopro é espírito). Ambos foram criadores maravilhosos, que deixaram suas marcas inapagáveis nos dormentes de pedra da existência (Salve Nelson Moreyra Barboza!). E então, enquanto ouvia a música de Pixinguinha, começou chover e a chuva despertou o cheiro da terra molhada. Passarinhos cruzaram, rápidos; duas siriemas esticaram os seus pescoços. As árvores balançaram com o vento, fazendo uma dança bonita: era agradecimento. Tudo ficou bem assim. O ar fresco, a luz suave da tarde, os sons das folhas.

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Paulo Palladini