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Escrevo
ouvindo Pixinguinha. Não o Pixinguinha de Carinhoso ou de Urubatan
das parcerias com João de Barro e Benedito Lacerda. Mas daquele
músico e compositor dos fundamentos, enroscado nas origens da musica
popular brasileira, nas raizes do samba e do choro. Penso nas parcerias
com João da Bahiana e Clementina de Jesus, onde o elemento africano,
notadamente a cultura do candomblé, fica mais evidente. Na gravação
de Yaô, por exemplo, composição de Pixinguinha e Gastão
Vianna, por sobre os vários couros em ritmo frenético, ouvimos
a voz rouca de João da Bahiana: Iô Iôô/ No terreiro
de preto véio iaiá / vamo saravá / vamo saravá.
Enquanto outras vozes perguntam: Pra quem meu Pai? Ao que ele responde:
Xangô ô. E modulando melodicamente as vozes de João
e Clementina a presença marcante do instrumento do mestre Pixinguinha.
Até a década de 40 ele tocava preferencialmente a flauta,
mas depois, por dificuldades de embocadura, optou pelo saxofone. Foi do
mais agudo ao mais grave. O sax tenor que usava ganhou-o de presente durante
uma temporada em Paris com seus Oito Batutas. Foi quando conheceu o jazz.
Era 1922. Teve por parceiros e amigos de vida inteira Donga (autor de
Pelo Telefone, considerado o primeiro samba gravado) e João da
Bahiana. Com este e Clementina de Jesus gravou, por exemplo, Batuque na
Cozinha, composição de João. Batuque na cozinha sinhá
não qué / por causa do batuque eu queimei meu pé.
Nessa gravação Pixinguinha passeia livremente por entre
os versos. Àquela altura já detinha a plenitude e o domínio
esplêndido do instrumento, que aprendeu a tocar ainda um menino.
Músico, compositor, maestro, arranjador. Pixinguinha deu forma
ao choro e à musica popular brasileira. A maioria de suas composições
é de música instrumental. Se hoje nós podemos falar
numa música instrumental brasileira, ele foi o seu pioneiro Ele
é o nosso Louis Armstrong, ou Louis é que é o nosso
Pixinguinha? Um saiu da África e foi dar no norte, o outro foi
dar no sul. Negros e descendentes de escravos. Ambos se encontraram no
território livre da música. Em vida chegaram a ter um encontro,
se sei, em 1957, promovido pelo presidente Juscelino, quando o músico
americano esteve no Rio. Ambos tiraram do chão que pisaram, do
ar que respiraram, das visões que tiveram, os elementos de sua
arte. Mas tanto o sopro de um como o sopro do outro nasceram daquela profundeza,
onde tudo é amálgama: a mãe África (não
nos esqueçamos, sopro é espírito). Ambos foram criadores
maravilhosos, que deixaram suas marcas inapagáveis nos dormentes
de pedra da existência (Salve Nelson Moreyra Barboza!). E então,
enquanto ouvia a música de Pixinguinha, começou chover e
a chuva despertou o cheiro da terra molhada. Passarinhos cruzaram, rápidos;
duas siriemas esticaram os seus pescoços. As árvores balançaram
com o vento, fazendo uma dança bonita: era agradecimento. Tudo
ficou bem assim. O ar fresco, a luz suave da tarde, os sons das folhas.
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