Voltar - Paulo Palladini

Perto e longe


Parece mais fácil resolver os grandes problemas do mundo, que aqueles bem mais próximos, os de nossa cidade, nossa rua, sem falar nos de dentro de casa. Consertar uma valeta na esquina parece mais difícil do que solucionar o conflito entre israelenses e palestinos. Escalamos com facilidade uma seleção brasileira de futebol campeã. Já não conseguimos o mesmo com o time de futebol de salão do bairro. Nem falemos no genuinamente mocoquense Radium Futebol Clube. Problemas de família? Resolvemos todos, menos os nossos. Sabemos perfeitamente bem o que os governantes precisam fazer para governar. Já quanto a administrar a própria casa... É que, quanto mais conhecimentos temos dos problemas, mais próximos deles estamos, mais complexos eles se nos apresentam. Quando a coisa acontece longe de nós, tudo se nos assemelha fácil. Basta entrarmos em contato direto com uma situação para sentirmos o quanto é difícil abordá-la. Assim, nós humanos, nos primórdios de nossa mente investigativa, começamos pelos aspectos mais complexos do universo, explicando sua origem e seu fim, sem ter qualquer meio científico de comprovação das assertivas. Nossos ancestrais, muitas vezes, simplesmente faziam afirmações sobre as coisas. O fundamento das afirmações, o que lhes conferia o caráter de verdade, era com freqüência, a autoridade de quem afirmava. Fosse uma autoridade religiosa ou política. Hoje não é mais assim. Ou quase. A ciência avançou muito. Muitos mitos foram derrubados. Para a ciência não importa quem está falando, mas o que; e como se chegou a determinada conclusão, sempre provisória. Mas na vida cotidiana tudo continua como dantes. Quanto mais complexo o campo mais palpiteiros atrai. Na medicina, por exemplo: é inegável que um cérebro é mais complexo que um estômago. No entanto, ninguém dá palpite sobre como deve ser uma cirurgia gástrica; já sobre o funcionamento da mente humana ou a causa de determinada desordem psíquica.... Nessas ocasiões somos tomados por uma espécie de onipotência infantil, que nos faz ignorar, exatamente, a realidade. No artigo anterior argumentei a favor de uma construção coletiva da realidade, sem, contudo, negar nem afirmar a existência de realidades independentes de nossos sentidos. Movo-me no território que delimitei, isto é, da realidade socialmente determinada, elaborada pelo consenso perceptivo. Ainda aí, quanto mais ignoramos algo, tendemos a achar que sabemos tudo sobre ele. Colocamos a imaginação no lugar da observação, o contrário do que preconizava o mestre Silveira. Pois basta alguém tentar estudar um pequeno grão de areia, para verificar logo que as coisas não são bem assim. A normalidade psíquica, se é que podemos falar nesses termos, consiste na subordinação de nossa subjetividade à situação objetiva; esta histórica, cultural e socialmente delimitada. Alguém que coloque sua subjetividade à frente, e atropele a realidade, ou é um gênio ou um louco. Ou ... pode estar apenas errado.

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Paulo Palladini