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Pensando na imortalidade Quando
meu mestre Anibal Silveira morreu há 30 anos o discurso de despedida,
à beira do caixão, foi proferido por outro professor, Aloysio
Mattos Pimenta. Eram amigos e colegas médicos de longa data. Atraiu-me
a atenção o modo como Pimenta se referiu à morte.
Ele disse: “Anibal, você passou da existência objetiva
para a existência subjetiva”. Os mortos continuam existindo,
só que na subjetividade dos vivos. Talvez por isso todo mundo se
preocupa em deixar algo para os que ficam. Pode ser um objeto ou um conselho,
uma casa, uma medalhinha ou uma história curiosa. As avós
são pródigas em recomendações, os avôs
em relógios e navios talhados a canivete. Se deixamos gravada nossa
marca no mundo tornamo-nos imortais. Os membros das academias de letras
são imortais não porque driblam a morte, que dela ninguém
escapa, mas porque deixaram uma obra escrita. Bem ou mal escrita, não
importa. São imortais porque construiram um passado, não
um futuro. Pode ser muito ou nada edificante, isso também não
importa. Tanto Cesar como Brutus tornaram-se imortais. Há homens
que contribuiram para o progresso da humanidade e são lembrados
por isso. Outros são lembrados por outras razões. Teve um
filósofo no século XIX que propôs celebrar, além
dos santos, as personalidades cujas existências representaram grandes
contribuições à humanidade nos vários campos
do conhecimento. Chegou a construir um calendário com tal propósito.
Uma idéia interessante, sem dúvida. Agora, se a imortalidade
é a sobrevivência subjetiva, são as imagens que sobrevivem
na memória. São elas que se tornam imortais. Uma expressão:
carpe diem. Uma fuga desesperada: a garota vietnamita fugindo do napalm.
Um gesto: uma mulher índia que amamenta o porquinho do mato. Ou
a explosão das torres do World Trade Center. São imagens
que se imortalizam como símbolos repletos de significado. A persistência
da memória depende do significado afetivo das imagens. Alguém
pode olhar a foto de um menino no jornal e nada sentir; para a mãe
daquela criança desaparecida a história é completamente
outra. Aliás o drama dos desaparecidos é terrível
porque todos precisamos concretizar a morte, precisamos do corpo, objeto
concreto, para elaborar a separação. Freud achava que é
justamente por isso que fazemos velórios e funerais. Tanto os familiares
dos guerrilheiros do Araguaia como os dos mortos do WTC vivem esse drama.
Não tendo diante de si os corpos não podem chorar as mortes.
O professor Anibal é importante para mim e para mim sua morte adquire
sentido. Para quem nunca ouviu falar dele o significado é nenhum.
Nunca existiu e nem existirá na subjetividade de quem não
chegou a conhecê-lo. Assim é a vida. Praças e edifícios
recebem nomes. Todos, no fundo, aspiram à imortalidade. As religiões
respondem a esta aspiração humana pregando a imortalidade
da alma, defendendo sua sobrevivência depois da morte como estrutura
organizada. Entidade espiritual. Orar pelos mortos é reconhecer
esta condição e ao mesmo tempo atualizar a memória
que temos deles. Formar uma família e ter filhos é um modo
de perpetuar os genes e a memória. Como plantar uma árvore
ou escrever um livro. Transformar um galho de goiabeira em cetro majestoso.
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