Voltar - Paulo Palladini

Pensando na imortalidade

Quando meu mestre Anibal Silveira morreu há 30 anos o discurso de despedida, à beira do caixão, foi proferido por outro professor, Aloysio Mattos Pimenta. Eram amigos e colegas médicos de longa data. Atraiu-me a atenção o modo como Pimenta se referiu à morte. Ele disse: “Anibal, você passou da existência objetiva para a existência subjetiva”. Os mortos continuam existindo, só que na subjetividade dos vivos. Talvez por isso todo mundo se preocupa em deixar algo para os que ficam. Pode ser um objeto ou um conselho, uma casa, uma medalhinha ou uma história curiosa. As avós são pródigas em recomendações, os avôs em relógios e navios talhados a canivete. Se deixamos gravada nossa marca no mundo tornamo-nos imortais. Os membros das academias de letras são imortais não porque driblam a morte, que dela ninguém escapa, mas porque deixaram uma obra escrita. Bem ou mal escrita, não importa. São imortais porque construiram um passado, não um futuro. Pode ser muito ou nada edificante, isso também não importa. Tanto Cesar como Brutus tornaram-se imortais. Há homens que contribuiram para o progresso da humanidade e são lembrados por isso. Outros são lembrados por outras razões. Teve um filósofo no século XIX que propôs celebrar, além dos santos, as personalidades cujas existências representaram grandes contribuições à humanidade nos vários campos do conhecimento. Chegou a construir um calendário com tal propósito. Uma idéia interessante, sem dúvida. Agora, se a imortalidade é a sobrevivência subjetiva, são as imagens que sobrevivem na memória. São elas que se tornam imortais. Uma expressão: carpe diem. Uma fuga desesperada: a garota vietnamita fugindo do napalm. Um gesto: uma mulher índia que amamenta o porquinho do mato. Ou a explosão das torres do World Trade Center. São imagens que se imortalizam como símbolos repletos de significado. A persistência da memória depende do significado afetivo das imagens. Alguém pode olhar a foto de um menino no jornal e nada sentir; para a mãe daquela criança desaparecida a história é completamente outra. Aliás o drama dos desaparecidos é terrível porque todos precisamos concretizar a morte, precisamos do corpo, objeto concreto, para elaborar a separação. Freud achava que é justamente por isso que fazemos velórios e funerais. Tanto os familiares dos guerrilheiros do Araguaia como os dos mortos do WTC vivem esse drama. Não tendo diante de si os corpos não podem chorar as mortes. O professor Anibal é importante para mim e para mim sua morte adquire sentido. Para quem nunca ouviu falar dele o significado é nenhum. Nunca existiu e nem existirá na subjetividade de quem não chegou a conhecê-lo. Assim é a vida. Praças e edifícios recebem nomes. Todos, no fundo, aspiram à imortalidade. As religiões respondem a esta aspiração humana pregando a imortalidade da alma, defendendo sua sobrevivência depois da morte como estrutura organizada. Entidade espiritual. Orar pelos mortos é reconhecer esta condição e ao mesmo tempo atualizar a memória que temos deles. Formar uma família e ter filhos é um modo de perpetuar os genes e a memória. Como plantar uma árvore ou escrever um livro. Transformar um galho de goiabeira em cetro majestoso.

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini