Voltar - Paulo Palladini


É apenas uma partida de futebol


Apenas uma partida de futebol entre as seleções do Brasil e da Coréia do Norte. Um início de Copa do Mundo. Nada demais. O fato é que o país, literalmente, parou. Comércio, bancos, escolas, serviços de saúde, tudo fechou. Só funcionaram as emergências e os serviços essenciais. Mesmo assim munidos de telões e guloseimas. Aqueles 90 minutos mostraram-se sagrados. Os milhões de fiéis permaneceram recolhidos aos seus lares diante do altar, que cada família mantém. Todos os olhos e ouvidos voltados para um só canal: aquele ligado direto com a África do Sul. Eu também, amparado por uma tigela de pipoca e paçoca de amendoim. Tudo isso para um futebol burocrático, apático e entediante. É contra quem? A Coréia do Norte, que não tem tradição nem futebol de qualidade. Nossos atletas fizeram o mínimo esforço, suaram o mínimo. Afinal, pra que correr? Cansa. Não tem problema, o importante é vencer. Se eles não tinham condições de ganhar de nós; então, não precisava esforço mesmo. Rola a jabulani pra cá, rola a jabulani pra lá; melhor ainda, rola para trás, recua até o goleiro, que passava o tempo todo sem fazer nada. Vendo essa equipe jogar desse jeito assaltou-me uma idéia: pra que ser hexacampeão mundial de futebol? Já não basta sermos pentacampeões? Ninguém pode nos alcançar. A gente vai fazendo esse joguinho medíocre, como um Rubens Barrichelo dos gramados. O que der deu. Se ganhar ganhou, se perder perdeu. Depois, qualquer desculpa serve. A seleção brasileira foi irritante, quase parada, estática no gramado, sem mobilidade nem criatividade. Ruim de ver. Como o estádio estava tomado pelas torcidas brasileira e coreana, ambas também apatetadas, nenhum espetáculo era visível também nas arquibancadas. Nada da profusão de cores dos africanos. Nenhum daqueles risos francos, nem seus cantos e suas danças. Não se para um país por nada. Esse meio feriado nacional revelou-se um embuste. Não é a questão da vitória; afinal o Brasil venceu. Mas o problema da apatia, da negligência, da falta de empenho e raça. Uma partida de futebol é vencida quando um dos contendores faz pelo menos um gol a mais que o outro. Terminamos o jogo com um gol a mais. Foi o bastante. Que fazer? No próximo encontro vamos dar mais uma chance para esta seleção. Afinal, era a estréia e nossos atletas deviam estar apreensivos e nervosos. Enfrentaríamos a Coréia do Norte! Que, alias fez um belo gol. O vexame, porem, não foi só nosso. Até o momento, entre os favoritos de sempre, quem jogou futebol com todas as letras foi a Alemanha. A Itália começou capengando, a Argentina suou a camisa para vencer na estréia por uma placar esquálido. E Espanha e França tropeçaram feio. A torcida brasileira não se empolgou porque o time não empolgava ninguém. Nenhuma jogada espetacular de levantar arquibancada, de arrancar aplausos acalorados. Para a honra e a glória do futebol brasileiro. Não apareceu nenhum jogador genial, daqueles que surgem não se sabe de onde, com jogadas irreverentes e geniais. Será que teremos oportunidade de ver o grande futebol brasileiro em campo durante esta Copa? Apesar dos pesares a esperança é viva. Amanhã tem mais. E viva o Brasil!

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Paulo Palladini