Voltar - Paulo Palladini

Pai e mãe, ouro de mina

Para mim a longevidade é uma das virtudes humanas. Meus pais completaram 85 anos de idade. A longevidade da união de um homem e uma mulher é das virtudes maiores. Como canta o poeta, pai e mãe é ouro de mina. Coração, desejo e sina. Por uma feliz coincidência meus pais se aproximam dos 60 anos de casamento. Bem mais de meio século de uma relação estável. Tanto do lado materno como paterno minha ascendência é italiana. Delena e Nalio, Pelicelli e Paladini. Da Itália a união do norte com o sul. Toscana e Calábria. Quatro famílias que pelos caprichos do destino conheceram-se e uniram-se em terras brasileiras. Atravessaram o Atlântico na condição de imigrantes e aqui fixaram suas raízes, consolidaram-se no trabalho árduo. Deram origem a uma nova geração de brasileiros já então identificados com a coisa tropical; sem abandonar o gosto pela pasta e o bom vinho. Não tenho muita clareza desse passado histórico. Vez ou outra me surge uma informação aqui, outra ali. Como os primórdios da humanidade nossas origens apresentam-se envoltas em neblina. Tudo fica mais claro há duas gerações. Convivemos com nossos avós, ouvimos deles histórias, provamos de suas receitas, ditados e visões de mundo. Fixaram-se-me pelas narinas os aromas do café e da pimenta, travesseiros de paina e capim, e por outra via o ranger de assoalhos, portas e cristaleiras. Do tio-avô soube da campanha no norte da África, dos inimigos que as densas noites no deserto mal deixavam divisar. Era a Segunda Grande Guerra. Do outro lado da mesa uma avó Carolina e um delgado-aquilino avô Cesar exibiam ao mundo seus nove filhos e as mãos calejadas; entre eles nove estava minha mãe. Avô Renato, pai de meu pai, negociava carnes e leite, enquanto a avó Emma, madrugada a fora, preparava as indefectíveis tortas de Páscoa. Costurava com paciência, minha mãe bordava. Toalhas de banquete, lençóis, arroz doce com passas e goiabada. Foi em cima da mesa de jantar que li pela primeira vez juntas as palavras: Paulo e Cenira. Estavam gravadas em um peso de vidro colorido para segurar papéis (ele ainda existe). Poderia o casal prever o que aconteceria nos próximos 60 anos? Num final de tarde em 59 passeei com meu pai por caminhos de terra e mato. Seguro por sua mão eu respirava; ele de gravata xadrez e camisa branca abotoada (os bois dependurados ainda teimam na memória). Foi numa Flexaret 6 x 6 que registrou meus pequenos triunfos na natação. Enquanto isso minha mãe, que nunca se assustou com machucados, preparava a sopa de feijão e os pastéis de queijo. Caíam as tardes. Às seis em ponto, tristemente, os sinos da Matriz de São Sebastião anunciavam a Ave Maria. Entre grilos e chiados do alto-falante. Pai. Eu, meu irmão e o cachorro Bolinho corríamos ao seu encontro. Desabalada carreira. Tudo foi construído em meio século de vida em comum: da primeira casa em terreno incerto às carreiras profissionais dos filhos. Medicina e engenharia. Mais tarde, depois da sobremesa, um a um os netos foram chegando. Para que servem as palavras senão para causar uma emoção? As palavras que cabem aqui são amor, dedicação, cuidado, prudência, previsão. Puro ouro, ouro de mina.

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Paulo Palladini