Voltar - Paulo Palladini


O que nos resta

Desde os dois roubos, de que fui vítima no mês passado, tenho refletido um pouco mais profundamente sobre a insegurança em que vivemos. É natural. Mesmo porque, esse é um caso, em que o raio pode cair mais de uma vez no mesmo lugar. Conversando com as pessoas a gente vai se inteirando melhor do grau de insegurança que atingiu a cidade. É difícil não pensar que a classe média foi entregue à sua própria sorte. Embora os policiais sejam gentis e prestativos, guardo a impressão de que estão sempre correndo atrás dos fatos. Na verdade ninguém com quem conversei se sente seguro seja dentro ou fora de casa, no trabalho ou no lazer. Durante muitos anos atendi no consultório até as 21h00; depois ainda fazia uma caminhada noturna. Alguns colegas chegaram a me alertar para os riscos; não é prudente trabalhar até tarde, não é prudente caminhar à noite. Agora, depois das ocorrências, reduzi o tempo de consultório, saio mais cedo, atendo menos pacientes. Não quero me expor nem expor funcionária e clientes à violência. Mas também não sei se isso adianta. Os conselhos que mais ouvi nestes dias podem ser condensados num só: aumente sua segurança pessoal. Isto é: instale alarmes e câmaras, portas eletrônicas, grades nas aberturas, cercas eletrificadas. Contrate segurança particular. Ninguém me aconselhou a procurar o poder público. Afinal, um dos direitos básicos dos cidadãos é a segurança. Se não posso andar tranquilamente pelas ruas da minha cidade, nem me sentir seguro dentro da minha própria casa... Que fazer? Vejamos o absurdo: é o bandido que determina como devo trabalhar, em que horários ou condições. Esta é uma inversão completa da lógica e do bom senso. Bom senso hoje é ficar quieto e ir embora mais cedo. Isso é inaceitável. Mudo meus hábitos para não ficar exposto à violência. Ninguém pode me oferecer uma palavra tranquilizadora sobre isso. A sensação térmica é de criminalidade crescente, uma verdadeira escalada do crime. Roubo à mão armada passou a ser coisa corriqueira. Para me defender devo em armar também? Não creio, a polícia é o braço armado da sociedade em defesa do cidadão. Quero acreditar nisso, quero confiar nessa assertiva. Cabe aos governantes proteger os cidadãos. E o fazem. Mas se as ações dos poderes públicos não se tornam visíveis os criminosos ficam cada vez mais ousados. E indiferentes à dor do outro. No belo filme de Tim Robbins, Os últimos passos de um homem, interpretado por Sean Penn e Susan Sarandon, o criminoso nega até o derradeiro instante ter cometido os assassinatos. Minutos antes de ser executado por injeção letal, ele admite sua culpa. O sofrimento que causou àquelas famílias foi imensurável, tanto pelo crime horrível com pela indiferença demonstrada. A indiferença para com o sofrimento do outro é um dos traços dessa criminalidade, que se torna psicopática. É a marca da maldade. Anteontem vi pela TV o caso de um casal, que fora assaltado no Rio. Por alguma razão, se é que tinha alguma, os bandidos empurraram o casal por uma ribanceira. Ambos se salvaram, mas que ponto atingimos! Vamos afundar mais ainda? O músico Marcelo Yuca, que ficou paraplégico durante um assalto anos atrás, foi novamente surpreendido por ladrões, quando manobrava seu carro. Eles não acreditaram que ele é deficiente físico e o espancaram e arrastaram para fora do veículo. Deixaram-no estendido no chão. E ele sem poder se mexer, metade do corpo paralisada... O que é isso companheiros? Só nos resta reclamar, ou nem mais isso?.

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Paulo Palladini