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A onda gigante A
onda gigante surgiu do nada. A onda gigante não é nada.
Já passou. Ela, a onda gigante, não tem desejos, não
come verdura, sopa de frango, nem amebas. Por onde passa tudo derruba.
Por onde vai seca lágrimas, dá volteios, sobe, explode,
chacoalha. Não tem pelos debaixo do braço; não tem
nariz. A onda gigante não fala, só age. Ou reage. Há
quem pense que é uma reação da natureza selvagem,
a qual nunca deveria ser mexida. Exibe músculos e vontades. Escolheu
para atacar justo um lugar de antiga tradição, mergulhado
até o pescoço nas modernidades, nas mais altas das tecnologias.
Pensamento econômico X. Justo ali a parede rachou. Gases mortíferos
para todos. Ninguém mais pode respirar. Curtir a pele na radiação
solar, encher o peito de partículas letais. As tais. Na grande
união socialista foi assim. Câncer e melancolia. Nem papa
nem língua. Mas a vida subsistirá nos cacos do caos; em
cada minúsculo cristal, que o venta leva sem interesse e deposita
nas pétalas de uma flor amarela. De plástico. Mil flores
de plástico não fazem um deserto florescer, cantou Fritz
Perls, na oração que nos ensinou. Há paz na terra.
Ou guerra. Querem derrubar o grande ditador. Balas de borracha, cassetetes
de aço. Tudo virou mercado. Tudo ou é mercadoria ou mercado.
A própria palavra mercado virou uma palavra mágica. Resolve
coisas, soluciona problemas milenares. Dentro dessa lógica, alguns
espertalhões vivem de inventar a roda. A cada hora ou minuto ou
milionésimo de segundo inventam uma roda. Quem quer comprar sabão?
Minha avó juntava as cinzas dos fogões para fazer sabão.
Não esqueço aquele cheiro, o aspecto amanteigado, a faca-ferrugem
que os talhava. Cubos de um quilo milimetricamente cortados. Minha avó
sabia usar facas. Àquela altura a onda gigante já tinha
passado e nós, aturdidos, não sabíamos o que fazíamos.
As retinas cansadas baixavam cortina ante o novo, o novíssimo dicionário
da língua brasileira. Tem um índio ali no canto soprando
brasas, suando castanhas e colhendo pássaros na garganta. A voz
de barítono deixou um rastro de caramujo no ar. Um grito parado
no ar desceu de um bonde chamado: desejo. Próxima parada: bairro
boêmio, gritou Ulisses, velho e arqueado. O cinema está morto.
A vida está morta! A última utopia foi enterrada na curva
do rio. Junto de um coração. A ficção virou
realidade e a realidade virou mar. Lama. É. É. Vai virar
mar. O conselheiro aconselhou: um vira sertão e outro vira mar.
Um ariano no quilombo do Brasil. Nada mal para uma orquestra estreante.
Os sertanistas chegaram e perguntaram aos homens do Xingú: com
quantas canoas se benze um pau-de-sebo? Na academia todos se maravilharam
com a cara de pau. Vamos falar de jangada, contemporizou Marcão,
ao avistar meninos, dúzias deles, roubando mangas das mangueiras
do Juqueri. Ele era o capitão-do-mato daqueles tempos mornos. Quem
cravou a estaca no peito de Malarmé? Quem quebrou a retorta do
genro de Kekulé? Tropicálias, bananas ao vento, um tamanco
cravado nas costas do Atlântico sul. Indiferentes as placas se movem,
deslizam, abalroam, amalgamam-se, volteiam, atropelam, interpenetram-se,
amaldiçoam. Eppur si muove. Pronto. Um ruído estranho, uma
linha no horizonte. No meio do nada, sem lenço nem documento. Viva
a mania, iá iá! Palmas! Começou a circular o expresso.
Ponto. A onda gigante surgiu do nada. A onda gigante não é
nada. Já passou. Ela, a onda gigante, não tem desejos. Leia
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