Voltar - Paulo Palladini

A onda gigante

A onda gigante surgiu do nada. A onda gigante não é nada. Já passou. Ela, a onda gigante, não tem desejos, não come verdura, sopa de frango, nem amebas. Por onde passa tudo derruba. Por onde vai seca lágrimas, dá volteios, sobe, explode, chacoalha. Não tem pelos debaixo do braço; não tem nariz. A onda gigante não fala, só age. Ou reage. Há quem pense que é uma reação da natureza selvagem, a qual nunca deveria ser mexida. Exibe músculos e vontades. Escolheu para atacar justo um lugar de antiga tradição, mergulhado até o pescoço nas modernidades, nas mais altas das tecnologias. Pensamento econômico X. Justo ali a parede rachou. Gases mortíferos para todos. Ninguém mais pode respirar. Curtir a pele na radiação solar, encher o peito de partículas letais. As tais. Na grande união socialista foi assim. Câncer e melancolia. Nem papa nem língua. Mas a vida subsistirá nos cacos do caos; em cada minúsculo cristal, que o venta leva sem interesse e deposita nas pétalas de uma flor amarela. De plástico. Mil flores de plástico não fazem um deserto florescer, cantou Fritz Perls, na oração que nos ensinou. Há paz na terra. Ou guerra. Querem derrubar o grande ditador. Balas de borracha, cassetetes de aço. Tudo virou mercado. Tudo ou é mercadoria ou mercado. A própria palavra mercado virou uma palavra mágica. Resolve coisas, soluciona problemas milenares. Dentro dessa lógica, alguns espertalhões vivem de inventar a roda. A cada hora ou minuto ou milionésimo de segundo inventam uma roda. Quem quer comprar sabão? Minha avó juntava as cinzas dos fogões para fazer sabão. Não esqueço aquele cheiro, o aspecto amanteigado, a faca-ferrugem que os talhava. Cubos de um quilo milimetricamente cortados. Minha avó sabia usar facas. Àquela altura a onda gigante já tinha passado e nós, aturdidos, não sabíamos o que fazíamos. As retinas cansadas baixavam cortina ante o novo, o novíssimo dicionário da língua brasileira. Tem um índio ali no canto soprando brasas, suando castanhas e colhendo pássaros na garganta. A voz de barítono deixou um rastro de caramujo no ar. Um grito parado no ar desceu de um bonde chamado: desejo. Próxima parada: bairro boêmio, gritou Ulisses, velho e arqueado. O cinema está morto. A vida está morta! A última utopia foi enterrada na curva do rio. Junto de um coração. A ficção virou realidade e a realidade virou mar. Lama. É. É. Vai virar mar. O conselheiro aconselhou: um vira sertão e outro vira mar. Um ariano no quilombo do Brasil. Nada mal para uma orquestra estreante. Os sertanistas chegaram e perguntaram aos homens do Xingú: com quantas canoas se benze um pau-de-sebo? Na academia todos se maravilharam com a cara de pau. Vamos falar de jangada, contemporizou Marcão, ao avistar meninos, dúzias deles, roubando mangas das mangueiras do Juqueri. Ele era o capitão-do-mato daqueles tempos mornos. Quem cravou a estaca no peito de Malarmé? Quem quebrou a retorta do genro de Kekulé? Tropicálias, bananas ao vento, um tamanco cravado nas costas do Atlântico sul. Indiferentes as placas se movem, deslizam, abalroam, amalgamam-se, volteiam, atropelam, interpenetram-se, amaldiçoam. Eppur si muove. Pronto. Um ruído estranho, uma linha no horizonte. No meio do nada, sem lenço nem documento. Viva a mania, iá iá! Palmas! Começou a circular o expresso. Ponto. A onda gigante surgiu do nada. A onda gigante não é nada. Já passou. Ela, a onda gigante, não tem desejos.

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini