Voltar - Paulo Palladini


Obama X Osama

A casa é o asilo inviolável do indivíduo. Ninguém pode penetrar nela sem o consentimento do morador. Ponto. Estas palavras, tiradas diretamente da Constituição do Brasil, mostram-nos, de modo, inequívoco, um direito fundamental. Se existe um lugar para mim inviolável no mundo, esse lugar é a minha casa. Não conheço as constituições de outros países, mas imagino que princípios de natureza semelhante devem constar aqui e ali, em letras redondas e palavras claras. Nossos legisladores, contudo, estabeleceram as devidas ressalvas, quando, então a regra da inviolabilidade pode ser quebrada: em caso de flagrante delito, ou de desastre, ou em caso de socorro, ou ainda por determinação judicial. Tirante isso, ninguém pode invadir a casa de ninguém, sob nenhum motivo. Agora, pensemos na situação: uma força militar cruza a fronteira de um país, invade seu território, estaciona ao redor de uma casa, invade, executa alguns de seus ocupantes, aprisiona outros, inclusive crianças (que depois abandona), rouba objetos da família, toma o corpo de um dos mortos, e parte. Já em alto mar atira o corpo do morto para servir de comida aos peixes. Creio que ninguém apoiaria uma ação dessas. Se alguém invadir minha casa e ameaçar minha família, tenho todo o direito de defendê-la, e repelir o invasor. Acontece que o fato ocorreu no Paquistão, invadido por forças norte-americanas comandadas por Barack Obama, e a casa invadida era de Osama bin Laden. Então pode? Porque Osama cometeu crimes horríveis contra cidadãos inocentes em várias partes do mundo? E foi morto por isso, dentro de casa por soldados, sem qualquer julgamento ou simulacro de defesa. Era Osama bin Laden. As pessoas foram mortas sem que houvesse relato de resistência armada. Ah! Mas estavam com bin Laden. Ele explodiu Nova York, feriu gravemente o orgulho da grande nação americana. Sua ação matou milhares de pessoas. Foi declarado um terrorista, o pior terrorista em escala mundial. Deveria morrer milhares de vezes, tantas quantas foram suas vítimas. Não nego nenhum desses argumentos, nem tenho simpatia alguma por bin Laden e seus métodos. Não apoio nenhuma forma de fundamentalismo, religioso ou não. Nenhum extremismo radical. Mas fiquei incomodado durante dias, por não ver na imprensa questionamentos à ação americana, em si, altamente questionável. Por fim, começaram a aparecer. Uma força estrangeira pode invadir um país para perseguir desafetos? A casa de uma família pode ser invadida sem respeitar nenhuma lei? O suspeito pode ser executado sem qualquer amparo legal, e sem qualquer direito de defesa? Ah! Mas era bin Laden. E daí? Qualquer cidadão em qualquer parte do mundo tem que ter garantidos seus direitos contra qualquer acusação. O que aconteceu naquela casa em Abbottabad afronta os princípios básicos do direito. E há uma diferença enorme entre Obama e Osama: o primeiro é o presidente democraticamente eleito de um País livre para, entre outras coisas, observar as leis. O segundo era líder de uma rede rebelde radical, pequena e mortífera. Um dentro de lei, o outro fora da lei. Portanto, não posso esperar que ajam de modo igual, isto é: promovam execuções sem observar a legislação, violentando os princípios legais mais básicos. Se para Osama isto era admissível, afinal ele encarnava o terror, para Obama não. Um Estado nacional não pode usar os mesmos métodos que grupos terroristas usam. Nem agir com espirito de vingança. Obama não é Osama e, justamente por isso, está impedido de agir como se fosse. Não é. E um Estado não vinga, aplica a Lei.

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Paulo Palladini