Voltar - Paulo Palladini

Novela das Índias


Vamos falar de novela. E de cultura. Uma coisa não tem, necessariamente, a ver com a outra. Mas pode ter. Raramente assisto novela pela TV. Por chamamento de Ana e sugestão de algumas outras pessoas, comecei por ver Caminho das Índias, na Globo, dirigida por Glória Perez. A trama já corria solta com suas doses de malandragens e perversidades. Tudo muito exagerado; enfim, é novela. Parece-me que não há uma trama central. São múltiplas as tramas; tentam compor um painel do mundo contemporâneo. Globalização, questões étnicas e culturais, as várias formas de famílias, sua coesão e dissolução, questões relativas à mulher, às minorias, discriminação, classe média e criminalidade, pais rígidos, pais tolerantes, pais complacentes, pais perdidos. Tem mais: casamentos multiculturais e multirraciais, o medo do estrangeiro, do que é estranho. Têm também os tradicionais golpes, as falcatruas, as sacanagens (tudo por causa de dinheiro, claro). Algumas formas de loucura também são tratadas na novela. O jovem Tarso é o personagem da mais evidente delas. De modo geral a novela situa-se nos marcos da reforma psiquiátrica. Isso é bom. Valoriza os ateliês e as oficinas terapêuticas, os aspectos positivos e criativos dos pacientes, suas iniciativas, inclusive na busca de ajuda terapêutica. Nise da Silveira, das mais importantes psiquiatras brasileiras, corajosa e premonitória na abordagem das desordens mentais, é bem citada. Portadores de transtornos viram atores, outros dão depoimentos. Em maio aconteceram as Olimpíadas de Saúde Mental, em Casa Branca, em comemoração ao 18 de maio: Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Mais de 40 equipes, milhares de atletas. Mococa participou de todos os torneios até hoje, desde o primeiro. Em 2009 fomos com duas equipes: uma do Caps-ad, outra da Oficina Terapêutica. Durante o evento, eu estava fotografando, quando uma jovem se aproximou, disse chamar-se Shirlei e ser usuária de um serviço de saúde mental de São Paulo; iria participar da sessão de videoquê. Pediu que a fotografasse enquanto cantava e remetesse o retrato para ela. Assim fiz. A foto ilustra este artigo. E foi justo ela quem apareceu durante a semana, num dos capítulos da novela Caminho das Índias, dando seu depoimento. Na trama Tarso representa o paciente psicótico típico; sofre com sua loucura, ouve vozes que o atormentam e o induzem a fazer coisas contra sua própria vontade. Desenvolve delírios que ninguém compreende. Incompreensão maior vive dentro de casa: um pai distante imerso no trabalho, uma mãe cega para os problemas do filho. A doença dela é não ver o que se passa com ele, é não permitir que ele cresça, é justificar sempre sua conduta, é não aprofundar, viver na superficialidade e frivolidade. Os profissionais, encarnados no psiquiatra Dr Castanho, não são figuras super-humanas. Ao contrário, apresentam-se humanas até demais, tanto em como vivem suas vidas, como por seus dilemas, falhas, perplexidades. Dr Castanho, quando fala da psiquiatria, fala em tom didático, instruindo o telespectador. Como quando explicou as características de um psicopata, a personagem Ivone, que para muitos passaria, simplesmente, por uma pessoa maldosa. É muito mais que isso. Aliás, essa é a forma de loucura mais perigosa, muito mais que a psicose do Tarso, que chegou a atirar em Murilo. Os psicopatas são perversos e dissimulados. Escondem suas intenções, fazem-se passar por pessoas boas e amigas, quando na verdade estão escondendo suas garras. Só vão mostrá-las quando a vítima, cuidadosamente escolhida, já não poderá mais se defender. Assim agem os psicopatas. Como são inteligentes e controlados, conseguem disfarçar seus atos. Há muitos deles soltos por aí, não é, Dr Castanho?

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini