Voltar - Paulo Palladini

No Berço do Samba

A SUM – Semana Universitária Mocoquense – terminou com uma roda samba em volta do coreto da praça Marechal. Quem fez o barulho foi O Berço do Samba de São Mateus, grupo de São Paulo. São Paulo tem samba. O grupo representa o autêntico samba paulistano, aquele que nasce nas bordas da cidade, juntando gente afim, que é firme no ganzá e tamborim. Alguém chega com um cavaquinho ou um bandolim. Tem surdo, caixas e violões. O Berço do Samba vai aonde o povo está. Quer mostrar a sua arte, o seu ritmo. Tocaram em Mococa, que não tem tradição de samba. E agradaram com certeza. Bastava o brilho no olhar do público presente. Uma bonita noite de domingo. Calma como devem ser as noites de domingo. A batida perfeita para aquele momento. Sem euforia, apenas balançando ao ritmo ancestral. Teve quem se soltou e dançou pra valer. A maioria, comedida, depois da missa, só meneou cabeça, marcou com o pé ou joelho. Aqui é assim. Evoco Itabira Êta! Dava para perceber que as pessoas estavam alegres e havia calor ali. O palhaço vendia algodão doce; as crianças se divertiam. O prefeito sorria e acenava. Dias antes eu vira uma foto do local, há quase cem anos atrás, quando as palmeiras imperiais ainda não cresceram. A imponente Matriz de São Sebastião já estava lá. Homens em ternos pretos, gravatas e chapéus passeavam pelas alamedas empoeiradas. Talvez conversassem com sotaque italiano, ou português ou espanhol. Contudo, na noite do samba não havia ninguém de terno, nenhum sotaque, exceto um murmurinho interiorano, que bem combina com a sonoridade caipira. Aqui e acolá uma gargalhada mais exaltada. Parece que os músicos ficaram satisfeitos, o público ainda bateu palmas ritmadas e pediu bis. O Berço do Samba acedeu e terminou com uma batucada maravilhosa. Fizeram reverências à madrinha do grupo: a sambista Beth Carvalho. Também nos brindaram com uma forte versão de Eterno Aprendiz do saudoso Gonzaguinha: viver e não ter a vergonha de ser feliz... Mais uma vez as crianças aprovaram, incluindo aquelas que existem dentro de cada adulto sonhador. A cultura se fez presente naquela praça. Árvores centenárias a abraçaram, abaixaram seus galhos até o mais baixo dos humanos. Soltaram seus perfumes. A terra seca exultou. Como no tempo dos pioneiros, cujas enxadas esculpiam o chão então morno e tenro. Aleluia! Com tudo isso, ao redigir este texto, Ana ainda me lembrou: ele seria publicado no dia 6 de agosto. É o dia em que recordamos o horror da bomba atômica. O dia da maior estupidez humana, o dia em que as forças americanas bombardearam a cidade de Hiroxima no Japão. Um artefato daqueles, cujo potencial destrutivo ainda não havia sido dimensionado, despejado sobre uma cidade. Que pensavam os americanos? Que havia lá embaixo? Por mais que justificativas estratégicas sejam colocadas, do ponto de vista humano foi uma estupidez, uma violência desmedida, uma crueldade, uma vingança, uma insensatez, uma insanidade, um mal sem tamanho. Que, pelo menos, tenhamos aprendido o suficiente com isso

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Paulo Palladini