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O mundo está desagradável e banal demais Adeus
Emilia, adeus Dona Benta, adeus Tia Nastácia, adeus Sítio
do Picapau Amarelo. Perigo à vista! Os caçadores de bruxas
estão à solta. E apontaram os personagens do escritor Monteiro
Lobato como os bruxos. E que devem ser caçados e cassados. O que
denominamos correção política é, simplesmente,
um desastre. E destrutiva. No fundo está se revelando tão
somente um moralismo tacanho. Mais um fundamentalismo a atormentar a vida.
Pois, ao contrário do que pensamos, os muito politicamente corretos
estão a serviço da mortificação. Do enquadramento,
da ordem, do zero absoluto. Nenhum comportamento desviante será
tolerado. É a visão de um simãobacamartismo. É
um novo macartismo, aqui rebatizado de bacamartismo. Tão grosseiro
quanto o outro, tão mesquinho perante a vida. Nem sei se existe
arte politicamente correta! Quem sabe a arte ariana ou o realismo socialista.
Nada de realismo mágico nesse horizonte. Veias abertas. A essência
da arte é a liberdade criativa. Os cânones, quaisquer deles,
no máximo balizam algumas expressões. Quantos movimentos
e reviravoltas no campo da cultura, não foram respostas criativas
aos cânones vigentes? Maiakovski discutiu poesia com o fiscal de
rendas. As burocracias não compreendem as artes; jamais compreenderão,
porque são incompatíveis. Nenhum decreto-lei pode dar conta
do fazer artístico. Mas, e os excessos? As impropriedades? Claro,
a sociedade precisa se proteger. O mundo já está tão
ruim assim! Se o fato social é definido pela coerção,
conforme Durkheim, é preciso buscar a medida, o equilíbrio
entre a proteção da sociedade, sem a qual ela se desmorona,
e a liberdade necessária para sua evolução e a de
seus indivíduos. A literatura é sempre uma expressão
dessa liberdade. Mesmo sob as condições mais opressivas.
O escritor russo Soljenitzyn denunciou os gulags; Anne Frank o horror
nazista. Lorca, Neruda, Galeano, Genet. Em cada um a expressão
da sua liberdade. O que fez Euclides da Cunha? O que faz Zé Celso?
Ou Lima Barreto, ou Machado de Assis? Há sempre um gesto cortando
o ar, um grito parado enchendo o espaço. A plenos pulmões,
escreveria Maiakovski. Reduzir ao silêncio o escritor falante é
destruí-lo. Cortemos a língua de Shakespeare, desamarremos
os sapatos de Kafka, manietemos Nelson Rodrigues. Nenhuma literatura foi
concebida politicamente correta. Queimaremos em praça pública
o Livro-dos-livros? Não podemos permitir o triunfo da mediocridade,
tampouco a ascensão da boçalidade. O mundo está violento
e intolerante, desagradável, banal demais. O que nos resta se Epicuro
não cuidou bem de seu jardim? Se o deserto é mero campo
de provas de artefatos atômicos? Microfones e câmeras ocultas
tudo ouvem, tudo vêem. Se a intimidade é abolida com a remoção
das paredes e das vestes (quem sabe até das peles?), se todos os
orifícios podem ser penetrados, então, para que literatura?
A supressão da primeira e última liberdade é apresentada
como a própria liberdade... Seguir o rebanho é ser livre,
esticar o cabelo, escrever 140 caracteres, mostrar um rosto que não
é o seu. Se isso é liberdade... Caro Monteiro Lobato, você
e sua turma, estão todos fora da ordem, condenados à supressão.
Desconstrução. Serão deletados em nome do bem comum.
Você Monteiro Lobato, faz mal à saúde, o ministério
da educação adverte. Contudo, o próprio Monteiro
Lobato nos adverte: a educação faz mal ao minotauro. E nós,
os que deciframos Urupês, vivos, agradecemos. Basta de grateful
dead. Leia
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