Voltar - Paulo Palladini

O mundo está desagradável e banal demais

Adeus Emilia, adeus Dona Benta, adeus Tia Nastácia, adeus Sítio do Picapau Amarelo. Perigo à vista! Os caçadores de bruxas estão à solta. E apontaram os personagens do escritor Monteiro Lobato como os bruxos. E que devem ser caçados e cassados. O que denominamos correção política é, simplesmente, um desastre. E destrutiva. No fundo está se revelando tão somente um moralismo tacanho. Mais um fundamentalismo a atormentar a vida. Pois, ao contrário do que pensamos, os muito politicamente corretos estão a serviço da mortificação. Do enquadramento, da ordem, do zero absoluto. Nenhum comportamento desviante será tolerado. É a visão de um simãobacamartismo. É um novo macartismo, aqui rebatizado de bacamartismo. Tão grosseiro quanto o outro, tão mesquinho perante a vida. Nem sei se existe arte politicamente correta! Quem sabe a arte ariana ou o realismo socialista. Nada de realismo mágico nesse horizonte. Veias abertas. A essência da arte é a liberdade criativa. Os cânones, quaisquer deles, no máximo balizam algumas expressões. Quantos movimentos e reviravoltas no campo da cultura, não foram respostas criativas aos cânones vigentes? Maiakovski discutiu poesia com o fiscal de rendas. As burocracias não compreendem as artes; jamais compreenderão, porque são incompatíveis. Nenhum decreto-lei pode dar conta do fazer artístico. Mas, e os excessos? As impropriedades? Claro, a sociedade precisa se proteger. O mundo já está tão ruim assim! Se o fato social é definido pela coerção, conforme Durkheim, é preciso buscar a medida, o equilíbrio entre a proteção da sociedade, sem a qual ela se desmorona, e a liberdade necessária para sua evolução e a de seus indivíduos. A literatura é sempre uma expressão dessa liberdade. Mesmo sob as condições mais opressivas. O escritor russo Soljenitzyn denunciou os gulags; Anne Frank o horror nazista. Lorca, Neruda, Galeano, Genet. Em cada um a expressão da sua liberdade. O que fez Euclides da Cunha? O que faz Zé Celso? Ou Lima Barreto, ou Machado de Assis? Há sempre um gesto cortando o ar, um grito parado enchendo o espaço. A plenos pulmões, escreveria Maiakovski. Reduzir ao silêncio o escritor falante é destruí-lo. Cortemos a língua de Shakespeare, desamarremos os sapatos de Kafka, manietemos Nelson Rodrigues. Nenhuma literatura foi concebida politicamente correta. Queimaremos em praça pública o Livro-dos-livros? Não podemos permitir o triunfo da mediocridade, tampouco a ascensão da boçalidade. O mundo está violento e intolerante, desagradável, banal demais. O que nos resta se Epicuro não cuidou bem de seu jardim? Se o deserto é mero campo de provas de artefatos atômicos? Microfones e câmeras ocultas tudo ouvem, tudo vêem. Se a intimidade é abolida com a remoção das paredes e das vestes (quem sabe até das peles?), se todos os orifícios podem ser penetrados, então, para que literatura? A supressão da primeira e última liberdade é apresentada como a própria liberdade... Seguir o rebanho é ser livre, esticar o cabelo, escrever 140 caracteres, mostrar um rosto que não é o seu. Se isso é liberdade... Caro Monteiro Lobato, você e sua turma, estão todos fora da ordem, condenados à supressão. Desconstrução. Serão deletados em nome do bem comum. Você Monteiro Lobato, faz mal à saúde, o ministério da educação adverte. Contudo, o próprio Monteiro Lobato nos adverte: a educação faz mal ao minotauro. E nós, os que deciframos Urupês, vivos, agradecemos. Basta de grateful dead.

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Paulo Palladini