Voltar - Paulo Palladini

Mulheres e mães


Este artigo foi originalmente publicado no jornal A Mococa de 13 de setembro de 1997. Decidi republicá-lo agora, com pequenas modificações, em homenagem à mulher no seu melhor papel: o de mãe. O texto fala de duas mulheres. Uma jovem e bonita, fora casada com o herdeiro do trono inglês. Ostentou o título de Sua Alteza Real, depois cassado pela rainha. Há sempre uma velha rainha em histórias assim, tentando impedir que uma jovem se aproxime do trono. E ainda há trono na Inglaterra. A outra, uma idosa e sábia mulher de origem albaneza, dedicou sua vida aos pobres da Índia. Ainda há pobres na Índia. Uma princesa, a outra freira. Ambas já morreram. Ambas estiveram extensamente expostas à curiosidade do mundo. Uma delas midiática, a outra quase reclusa. Lady Diana e Madre Tereza. Suas vidas, muito antes de suas mortes, adquiriram a força simbólica dos mitos. Diana com sua fragilidade cativante, uma mulher jovem em busca da felicidade, vivendo uma vida singular, sonhando com uma vida normal. Madre Tereza, forte e tenaz, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, cuidando dos mais desvalidos entre os desvalidos da terra. Fizera sua opção muito cedo para um tipo de felicidade que viveu em toda a dimensão possível. Fundou uma ordem religiosa, a Congregação das Missionárias da Caridade, e dirigiu-a até morrer. Diana, embora de família tradicional, encarnou a vida moderna: casamento, filhos, divórcio, namorados, atividades sociais. Lutou pela erradicação das minas terrestres, que até hoje mutilam pessoas em várias partes do mundo; em especial crianças na África. Madre Tereza vivenciou os valores ancestrais da caridade, do amor ao próximo, do desprendimento, da sabedoria. Dois estilos de vida singulares e completamente distintos um do outro. A busca da realização pessoal de Diana contraposta à devoção ao próximo de Madre Tereza. Valores. Juventude e longevidade. Para mim, a longevidade é uma das principais virtudes humanas . Envelhecer realizando um projeto existencial. Quantos não ficam pelo caminho? Não sucumbem às armadilhas, que o acaso-destino vai armando a cada passo? Há quem argumente: mesmo morrendo jovem uma pessoa cumpre sua missão terrena. Não necessariamente. Pode deixar incompleto seu projeto existencial, perdida na selva do mundo, sem se encontrar a si mesma... Completaria o seu ciclo da mesma forma? Não sabemos. Este é um dos mistérios da vida. Madre Tereza viveu bastante e intensamente, dedicando sua força e tenacidade aos deserdados na terra. Diana procurava o seu caminho. Certo dia as duas se encontraram: Tereza sorridente, cabisbaixa, as mãos postas em reverência; princesa Diana imitou seu gesto... Quase nada sabemos desse encontro, como se olharam e se tocaram, as palavras que eventualmente trocaram entre si. Por ocasião da morte, na cerimônia final, sobre o caixão de Diana tinha um cartão escrito: Mummy. Sobre o corpo de Tereza dormitava a palavra Mother.

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Paulo Palladini