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As mulheres de Araçuaí Assisti
pela TV a um documentário sobre Araçuaí no vale do
Jequitinhonha. Sempre apontada como uma das regiões mais pobres
do Brasil, a matéria jornalística, porém, tentou
mostrar a riqueza cultural do lugar; seu artesanato, sua poesia, sua música,
seu teatro, sua dança. Percebi nos protagonistas desta história
um grande esforço de valorização da cultura local
produzida pelo povo. Uma das entrevistadas, uma senhora corpulenta e alegre,
lidera um grupo de lavadeiras. Lá as lavadeiras trabalham na beira
do rio, e coram suas roupas sobre as pedras. Deve ser a educação
pela pedra de que nos fala João Cabral de Melo Neto. Na beira do
rio, batendo suas roupas as lavadeiras do Jequitinhonha entoam canções,
velhos cantos de trabalho, que atravessam século. A tal senhora
ficou intrigada com a quantidade de remédios que as mulheres de
Araçuaí tomavam. Via-as constantemente deixarem o posto
de saúde local com uma sacolinha repleta de medicamentos. Grande
parte delas tomava fluoxetina. Ela pensou – “deve ter algo
errado aí. Por que tanta mulher tomando antidepressivo”?
Aproximou-se delas, conversou, observou sua condição, e
diagnosticou: “baixa auto-estima”. Em vez de baixa serotonina,
diagnosticada pelos médicos, ela concluiu que o problema daquelas
mulheres era que sofriam de baixa auto-estima. Portanto, nada de fluoxetina.
Ajudou-as a se organizarem, formando uma roda de música e dança.
Valorizou suas tradições e resgatou seu canto numa outra
chave. Hoje elas cantam seu trabalho, suas dores e alegrias, não
mais na beira do rio. Elas apresentam sua música como portadoras
de uma cultura, que foi salva do desaparecimento. E se orgulham disso.
Sua auto-estima é alta. Dançam, rodam suas saias coloridas,
mostram no corpo e no riso a sua felicidade. São mulheres de um
Brasil rico e diverso, que deixam frequentemente escapar, pelos vãos
dos dedos, suas potencialidades. Vocações quase nunca realizadas,
histórias contadas pela metade. Auto-desvalorização,
baixa auto-estima. Nem só de fluoxetina vive o homem. Realmente
é espantoso o número de pessoas em uso de medicamentos para
depressão e ansiedade. As pessoas não estão suportando
suas próprias vidas. Falta-lhes sentido, diria Viktor Frankl. Como
não se sentem plenas em seus destinos, apequenam-se. Perderam a
tradição, base do que são hoje, e o futuro é
incerto demais para um cotidiano cheio de perigos e insatisfações.
Parece que nada vale a pena; viver não está valendo a pena.
Drogar-se até perder o senso talvez faça mais sentido. Explodir
um cinturão de bombas ao redor do próprio corpo talvez faça
algum sentido. Para um navegante, navegar é preciso. Para um pária
o que é preciso? Quem sabe construir um futuro com os restos das
tradições que sobram? Precisamos tanto de serotonina quanto
de auto-estima. Isso bem percebeu a alegre e corpulenta senhora do vale
do Jequitinhonha, que organizou a roda de lavadeiras e resgatou seu canto.
Mais que perceber, soube fazer algo com isso. Leia
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