|
Voltar
- Paulo Palladini
Se
muitos fizerem haverá esperança
Chove lá fora. Penso: isto é bom. Prova que a natureza não
capitulou ante a sanha destrutiva que aprendemos chamar de progresso,
desenvolvimento. Ainda chove e é gostoso sentir o cheiro da terra
molhada, do capim crescendo e tornado verde. A natureza se renova. Não
é preciso muito para preservar, basta não destruir tanto.
Mas embora tenhamos consciência disso pouco fazemos porque não
aceitamos mudar nosso estilo de vida. Sabemos que a continuar desmatando
para erguer novos condomínios, estaremos contribuindo para aniquilar
mais um pedaço de verde ou formar mais um deserto. Jamais será
recuperado. Mas por causa disso deixaremos de construir bairros e cidades?
Quanto mais carros circulando, mais gases tóxicos na atmosfera,
mais poluição. Deixaremos de produzir carros? Deixaremos
de comprá-los por causa disso? Esta é uma contradição
da qual não conseguimos escapar. Mas podemos enfrentar. A mesma
chuva que molha a terra e enche os reservatórios de água
provoca inundações nas cidades; ali já não
há mais áreas de absorção. Tudo está
asfaltado e a água não tem para onde correr. Vivemos uma
situação parecida com a do dependente do álcool que,
já apresentando os primeiros sinais de insuficiência hepática
e cerebral, sabe que precisa parar de beber. Mas quer continuar frequentando
o bar de tantos amigos, mantendo a mesma rotina depois do trabalho e,
por incrível que possa parecer, quer continuar bebendo (em menor
quantidade, claro) e ignorando fígado e cérebro. Pode ser
que nem queira mais beber, o fato é que já não consegue
mais parar. Assim estamos, queremos parar o processo destrutivo que patrocinamos,
mas já não temos competência para isso. Sentimo-nos
frágeis, não resistimos ao menor apelo. Continuaremos asfixiando
o planeta e nos asfixiando. Buscaremos qualquer justificativa para continuar.
Racionalizações às dúzias. Apenas ensaiaremos
algum gesto inóquo para aplacar a voz da consciência. Como
um dependente químico não ousamos mudar nosso estilo de
vida. Nossos hábitos. Queremos mudar sem mudar, ou, dito de outro
modo, mudar para deixar tudo como está. Ou, ainda numa outra idéia:
não queremos fazer sacrifícios. Temos horror a eles. Então,
agimos como se nossos atos não tivessem consequências. “Podemos
desmatar à vontade. Tem muita terra ainda para ser explorada”.
Não tem. A natureza é que é generosa conosco. Talvez
por sermos feitos da mesma matéria que ela, dos mesmos elementos
químicos, das mesmas sequências de aminoácidos. Talvez
ela nos reconheça como filhos. A mãe terra. As chuvas que
estão caindo, molhando profundamente o solo, devolvendo-lhe a fertilidade
é prova dessa generosidade. Não temos sido tão generosos
com ela. Cada um pode fazer pouco é verdade e isso reforça
o pessimismo, o desalento e a inação. Mas, como na história
do passarinho que tentava apagar o incêndio da floresta carregando
água no bico, cada um pode só fazer a sua parte, uma pequena
parte. Ocorre que se muitos fizerem haverá esperança.
Leia
pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini
|