Voltar - Paulo Palladini

Morte aos inimigos!

Em entrevista à revista Bravo! o escritor israelense David Grossman, veterano do exército e cujo filho Uri morreu na guerra do Líbano, fez a seguinte afirmação: “Para travar uma guerra você tem de, metaforicamente e literalmente, obliterar a face do seu inimigo. Se você quer matar alguém, você tem de esquecer que ele é humano. Isso é a coisa básica. Há muitas coisas que você tem de por de lado em relação a seu inimigo para mantê-lo como seu inimigo e lutar contra”. Em outras palavras e invertendo os termos: se eu olho para o outro e vejo um semelhante a mim, já não posso feri-lo. Idéia interessante. Quanto mais iguais forem os contendores, menor a chance de um desentendimento profundo. Para destruir alguém é preciso desumanizá-lo, transformá-lo em algo muito diferente de mim. Coisificá-lo. Assaltantes não gostam de olhar nem ser olhados nos olhos. Um ser humano só pode maltratar outro ser humano, se este não for mais considerado humano. Se, considero que um nativo não possui uma alma como eu, estou autorizado a torná-lo escravo. Para um delinquente da periferia de uma grande cidade os burgueses não são como ele; logo podem ser sequestrados, roubados e até mortos. O mesmo vale para os fascistas e os comunistas. E ateus, umbandistas, fumantes. No futebol, cuja linguagem é bélica por si só, nosso desejo, sempre, é eliminar os argentinos. Afinal eles não são como nós; eles próprios acham isso. Maradona não é e jamais será um Pelé. Então, morte aos inimigos! O mundo está mesmo cheio deles. Que hacer? Obliterar a face é a resposta. E tudo será permitido. Quando ladrões roubaram o convento de Francisco de Assis, este chamou-os de volta, ofereceu-lhes a própria comida e pedido de desculpas. Para ele aqueles não eram malfeitores, mas irmãos quem deviam acolher. Um leproso não lhe inspirava horror ou repulsa, mas vontade de abraçar. Perante o grande Pai todos são iguais. Se todos são iguais todos merecem respeito. Não é esta a base da convivência social? Para uma civilização possível é preciso que consideremos o que temos em comum, não nossas diferenças. Importa nossa humanidade comum. Local de nascimento, cor da pele, estrato social, grau de instrução, posse de bens materiais, nada disso justifica o desrespeito de uns para com outros. Por inveja Caim matou Abel. Aquele já não via mais este como o irmão, mas como o inimigo, que achava, tomava seu lugar junto ao Senhor. Por isso tinha de ser eliminado. E foi. Dissimulou, obliterou sua face. Quando o Senhor perguntou - Caim, onde está teu irmão? – só então ele caiu em si. Seus ressentimentos contra Abel afastaram-no. São os sentimentos que nos unem e desunem, não nossos argumentos lógicos. Nós nos aproximamos de quem sente como nós, não de quem pensa como nós, escreveu Lúcia Coelho, minha professora de psicologia. Para matar alguém preciso é cobrir sua face. Um ser humano não pode, simplesmente, matar outro ser humano; é preciso, antes, desumanizá-lo. Façamos, com Grossman, o exato oposto.

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Paulo Palladini