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Moro num país musical Em
meio a noticias de tantas mortes trágicas, cruéis e dramáticas,
deparo-me com a notícia da morte de Paulo Moura. Tinha 77 anos
e sofria de uma forma de câncer linfático. Era músico,
maestro, instrumentista e compositor. Tocava saxofone e clarineta. Tinha
formação erudita e popular. Das incursões pela música
erudita formou um duo com a pianista Clara Sverner. O duo chegou a apresentar-se
em Mococa no Teatro Municipal. Fui ouvi-los. O repertório incluía
canções brasileiras populares, de modo que sua apresentação
não era desse ou daquele tipo de música. Era simplesmente
Música, com M maiúsculo. Seu sopro, preciso e cuidadoso,
era a imagem do sopro vital/espírito. Dava para acompanhar o movimento
do ar através da clarineta transparente e dourada que usava. Clara
clarineta. Foi com ela que se despediu da vida em cena emocionante na
Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Rodeado de amigos,
dois dias antes de morrer, já muito debilitado, quis fazer uma
última sessão de música. O jornalista João
Paulo, do Estado de Minas, na edição do dia 14, assim descreveu
a cena: “recebeu um grupo de amigos, no sábado, e tocou,
com o esforço exigido pela saúde abalada, o choro Doce de
coco, de Jacob do Bandolim, numa jam session com a presença de
Wagner Tiso, Humberto Araújo, Marcello Gonçalves, Daniela
Spielman e Cliff Korman. Todos na Clínica São Vicente, onde
estava internado, se emocionaram. Não foi pela fragilidade da cena,
mas pela força da arte que se transmuta em vida. Paulo Moura confirmava
seu destino. Ele estava se tornando só música”. Despediu-se
executando com amigos uma música de sua preferência. É
significativo que tenha sido um choro. O choro está na essência
da música popular brasileira e é essencialmente instrumental.
A música instrumental brasileira é formidável. Temos
instrumentistas incríveis e ótimos compositores. Eles não
freqüentam os meios de comunicação nem as paradas de
sucesso; quando muito acompanham cantores de grande popularidade. Mesmo
instrumentistas muito conhecidos como Hermeto Paschoal, Waldir Azevedo,
Altamiro Carrilho, Egberto Gismonti para ficarmos em poucos dos bons,
são conhecidos de verdade nos nichos que ocupam. O ícone
Hermeto é mais conhecido fora do Brasil do que dentro. Quando o
Duo FEL, de violões, conquistou visibilidade nacional, depois de
arranjar para Tetê Espíndola, Escrito nas Estrelas, vencedora
do Festival da Globo, e acompanhá-la Luis Bueno, um dos seus integrantes
observou: “Paradoxalmente as coisas estão acontecendo mais
facilmente para nós lá fora do que aqui”. Junto com
Hermeto eles tocaram em alguns dos templos europeus da musica instrumental.
Na época já somavam duas décadas de lutas. Para os
músicos o caminho sempre é difícil; quando aparecem
para o grande público têm muitos anos de estrada. Contudo,
para eles tocar num pequeno espaço para poucas pessoas ou em grandes
locais para milhares não importa muito. O que realmente importa
é realizar sua arte, ter a oportunidade de realizá-la. Assisto
com freqüência ao programa Instrumental SESC, gravado em unidades
do SESC de São Paulo, uma das boas coisas que a TV por assinatura
tem para oferecer. Todo dia uma apresentação nova com jovens
e velhos músicos, dos mais variados estilos e formações,
todos os instrumentos imagináveis e alguns inimagináveis.
Grupos e músicos dos quais nunca ouvi falar alternam-se no pequeno
palco. Não canso de me surpreender com a alta qualidade das apresentações.
Sempre impecáveis. Como tem gente boa fazendo musica no Brasil!
Nosso país é mesmo um belo país musical. Leia
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