Voltar - Paulo Palladini

Meu carnaval (azedo)


Carnaval. O movimento vem de alguns anos: iniciativas de revitalizar o carnaval de rua, aquele de pequenos blocos, que se organizam em bairros ou praças da cidade. Estas manifestações espontâneas passam ao largo das grandiosas e caras montagens do assim chamado carnaval oficial. Isto é, dos desfiles padronizados das escolas de samba. Estas são até bonitas de se ver, mas não tem nada de espontâneo. E espontaneidade, para mim, é o caráter do carnaval. Vejamos o desfile de uma grande escola do Rio de Janeiro. É organização do começo ao fim. Coreografias ensaiadas à exaustão. Cronometragem. Nada escapa à ordem, à estrutura traçada pelo carnavalesco a partir de um regulamento. De vez em quando um acidente rompe a monotonia: um carro alegórico quebrado, uma porta-bandeira que passa mal, uma altercação entre segmentos rivais da escola. Porém, se tudo sair como no figurino, todas as escolas terão enredos parecidos, sambas parecidos, puxadores com vozes parecidas, carros, destaques, tudo quase igual. E a cobertura da imprensa não diferirá de um órgão para outro. A falsa alegria dançará nas bocas dos locutores e comentaristas – aqueles mesmos, sempre os mesmos. Qual a diferença entre uma celeridade e outra num camarote da cerveja X ou da cerveja Y? O roteiro de sempre. Mesmice, mesmice, mesmice. Pior ainda: vamos para a Bahia. Axé? Atrás de um trio elétrico quem vai? Gente suarenta babando cerveja, sublimando sangue e lágrimas! Espremidos foliões atrás dos carros, musica horrível, calor, aglomerados em cercadinhos, orgulhosos de seus uniformes idiotas. Siga a seta, mexa o corpo, mas não como quiser. Encher o caco com todas as drogas, das naturais e das sintéticas. Nada pode ser original. Nas cidades medias e pequenas do interior pode ser ainda mais pior. Não gosto quando querem parecer grandes. Então, denominam escolas de samba seus pequenos blocos; tentam imitar as escolas do Rio, tudo em escala reduzida. Até samba enredo compõem ou encomendam, animados por puxadores roucos e versos ininteligíveis. No grande dia, de meia dúzia em meia dúzia o desfile arrasta. Uma chatice, um anti- carnaval desinteressante, desanimado e pra baixo. Não me levem a mal. Estou é muito azedo. Se valorizo o carnaval espontâneo e desorganizado, fora da ordem, sem enredos nem regulamentos, não resisto a um batuque na cozinha, uma bateria bem ritmada. E a dança frenética, mesmo sem sair do lugar. Não tenho nada contra o carnaval. Adoro uma marchinha, e até um ou outro samba-enredo. Gostava do Festival Mocoquense de Músicas Carnavalescas, aquele dos velhos tempos. No fundo sou um anti-folião Talvez dê as caras em algum evento como a chegada do Rei Momo em algum lugar. Quem sabe acompanhe o desfile dos blocos na avenida; espero que sejam originais e criativos. É o que faz um carnaval bonito. Uma característica própria, uma marca do povo desse lugar. O canto do povo do lugar. Quero, pela pisada, pela cantoria, pelo ritmo, mesmo ao longe, poder dizer: são os nossos, vamos ao encontro deles!

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Paulo Palladini