Voltar - Paulo Palladini

Mestres terapeutas

Livros são sempre presentes maravilhosos. Pelo menos para mim. Tempos atrás ganhei de Ana, minha mulher, um desses de lavar a alma. Foi sugestão de frei Vitório Mazzuco, que esteve em Mococa para um encontro da Ordem Terceira no Convento São José. Na época ele era editor da Vozes, a grande editora sediada em Petrópolis; hoje é Vice-provincial da Ordem Franciscana. Viera falar de espiritualidade e, também, de psicologia. E de como esses campos se interpenetram. É disso que trata o livro Terapeutas do Deserto, da aproximação das diversas tradições religiosas e sua integração com o conhecimento psicológico atual. Jean-Yves Leloup, um dos autores, chega a afirmar: “Não há oposição entre o conhecimento de si mesmo que a psicologia propõe e o conhecimento de si mesmo que a espiritualidade propõe”. O diálogo só pode ser fecundo. Leonardo Boff, co-autor do livro, fala de São Francisco. Na verdade Terapeutas do Deserto é resultado de um seminário da Universidade Holística Internacional em Brasília, organizado em 1996 como parte do curso de formação em psicologia transpessoal e holística. Instigantes os dois teólogos desafiam nossas certezas no terreno da espiritualidade propondo novas questões. Jean-Yves aborda aspectos essenciais das tradições budista e taoista cotejando-as com a psicologia analítica de Jung e a psicanálise de Freud. Mostra como é enriquecedora a integração dos diferentes níveis da experiência humana. Dedica um capítulo à sombra, aquela parte de nós mesmos negada e rejeitada pela consciência, reprimida por inaceitável. Remonta a Heráclito, um filósofo pré-socrático, que dizia: cada coisa se transforma em seu contrário. Um desejo intenso de ser bom e fazer o bem pode atrair exatamente o seu oposto. Ou, então, após uma explosão de cólera, a pessoa pode sentir uma grande ternura. Para Jean-Yves “aqueles que querem matar os diabinhos acabam por matar também o anjo”. A sombra, o lado negativo de cada um, não é para ser destruído, e sim integrado à personalidade do indivíduo. “Não há caminho para a luz que não faça a travessia da sombra”, conclui. Leonardo Boff relembra, a este respeito, que São Francisco se considerava um pecador mesquinho e vil; reconhecia sua sombra. Fazia das dimensões negativas caminhos de encontro com Deus. No capítulo sobre o discernimento Jean-Yves faz um alerta: “certas palavras que se atribuem a Deus vêm do mais profundo do homem”...”e quando lemos em um texto sagrado deve-se ler como uma palavra de Deus, mas não esquecer que este Deus nos fala através dos seres humanos, através da linguagem humana”. Esse modo relativo de olhar o absoluto conduz a uma atitude de equilíbrio e respeito, evitando os perigos do desprezo pelo outro, por um lado e da idolatria cega, por outro. Terapeutas do Deserto guia-nos por esta senda, a senda da fé preciosa.


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Paulo Palladini