Voltar - Paulo Palladini

O mal estar

O processo civilizatório é, em grande medida, o processo de coerção dos instintos agressivos e a canalização da energia dos móveis afetivos primários para finalidades socialmente mais elevadas. A tendência à destruição, que se manifesta sob a forma de agressão e violência, é inerente à natureza humana e representa um desses instintos que as sociedades precisam regular para que a civilização progrida. Melhor dizendo e radicalizando: se tais forças não são controladas o que entendemos por civilização não tem nenhuma chance de sobreviver. Ocorre que a coerção sobre os instintos, por inibir sua expressão, provoca um profundo e difuso mal estar; é o preço a pagar pela evolução social. Ou isso ou a barbárie. Mas ocorre também que as tendências instintivas possuem muita força e continuamente exercem pressão sobre as instâncias reguladoras. Querem ser satisfeitas. É do equilíbrio entre satisfação instintiva, por um lado, e segurança social, por outro, que depende, em grande medida, nossa saúde mental individual e coletiva. Rompido o equilíbrio fica aberta a porta para a agressividade patológica. Importa dizer que a regulação referida acima é exercida por instâncias sociais variadas: família, religião, escola, trabalho, poderes constituídos, grupo cultural, classe social e outras. Tudo é muito complexo. Assim, há valores compartilhados por todos os membros de uma coletividade enquanto que outros são compartilhados somente por certos grupos minoritários. Existem idéias que são comuns à humanidade como um todo e outras reconhecidas apenas por pequenas tribos e até por indivíduos isolados. Se alguém se identifica como judeu ou muçulmano isso faz grande diferença para ele e para os outros. Sua visão de mundo fica afetada necessariamente por essa identificação e os julgamentos que faz tendem a se estender a todos os membros do lado de cá e a todos os do lado de lá. Aí está a raiz do preconceito e dos genocídios: os do lado de lá são maus, terroristas, inimigos, traidores. Devem, portanto, ser eliminados em nome do bem comum ( isto é, do lado de cá). Durante a semana a sensatez de vários líderes políticos e religiosos israelenses e palestinos manifestou-se contra os riscos inerentes a esse modo de colocar as coisas. Quando alguém fala: os judeus são assim ou os muçulmanos fazem aquilo, está simplesmente ignorando a multiplicidade e a riqueza humanas presentes em todas as sociedades e culturas. Está negando a individualidade, a singularidade de cada ser. Como fizeram os nazistas há 70 anos julga as pessoas por uma única característica: seu pertencimento a determinada coletividade. Toda generalização desse tipo é injusta e perigosa, põe em risco a integridade física e moral de pessoas inocentes. Não pode, portanto, receber apoio nem estímulo e as ações de seus promotores devem ser veementemente repudiadas.

Leia pc.palladini.zip.net
Paulo Palladini