Voltar - Paulo Palladini


La hermana. Nenhum medo

“Minha querida: que Deus nos ajude para continuarmos enchendo o mundo de música e poesia, que são nossa imagem. Eu te amo muito e sou muito feliz por ter trabalhado contigo. Na maioria das vezes em que estivemos juntos, coisas mágicas aconteceram”. Foi com essas palavras que Milton Nascimento se manifestou sobre a morte da cantora argentina Mercedes Sosa, dia 4, em Buenos Aires. Milton tem razão. Quando quase perdemos nossas vozes ela foi a nossa voz. Quando precisou de abrigo fomos seu abrigo. Em 1976, Milton gravou Geraes; Mercedes participou fazendo dueto com ele numa canção da compositora chilena Violeta Parra: Volver a los 17. Por esta gravação Mercedes Sosa ficou conhecida no Brasil; a grande intérprete da voz sudamericana. Ela colocou seu som no lugar do silencio daqueles que não podiam falar. De Violeta Parra gravou também La carta e Me gustan los estudiantes. Do grande Victor Jara, chileno como Violeta, preso e morto pela ditadura de Pinochet, deixou-nos o registro de Plegaria a un labrador. Tão bela quanto Te recuerdo Amanda. Todas canções engajadas. Como os punjentes poemas de Tejada Gomez: Hay un nino en la calle e Cancion con todos. Muitos outros compositores ela interpretou, sempre com voz potente e forte presença. Muitas vezes batendo num rústico tambor. Yo tengo tantos hermanos/ que nos los puedo contar. Gente de mano caliente. Cada qual con sus trabajos/ con sus suenos cada qual... la esperanza adelante... y una hermana muy hermosa/ que se llama libertad. Esta canção de Atahualpa Yupanqui é uma espécie de canção-símbolo da temática que Mercedes Sosa elegeu para sua vida: a união de todos na luta contra a opressão. Mesmo numa doce canção de ninar, Duerme Negrito, música tradicional de domínio público, estão presentes esse elementos de denúncia da opressão social; como chamou, certa vez, minha atenção Jefferson Zanchi. Logo após a morte da cantora o filho Fabián, que era também seu empresário, declarou: “Ela viveu plenamente seus 74 anos. Fez quase tudo o que quis. Não teve nenhum medo ou barreira que a limitasse. Mercedes sempre foi um símbolo de liberdade”. E isso é grande valor, principalmente num continente que até há pouco só conhecia solavancos políticos e instabilidades, pátrias não nascidas. Talvez seja difícil de avaliar quem não viveu os anos de chumbo. Talvez seja incompreensível, para os jovens de hoje, o papel de Mercedes naqueles cenários sombrios das ditaduras latino-americanas. Mas graças a ela todos podemos entoar os versos da violetiana Gracias a la vida, seu maior sucesso: Gracias a la vida que me ha dado tanto/ me ha dado la risa y me dado el llanto/ asi yo distingo dicha de quebranto/ los dos materiales que forman mi canto/ y el canto de ustedes que es el mismo canto/ y el canto de todos que es mi proprio canto/ Gracias a la vida. Descanse em paz hermana.

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Paulo Palladini