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- Paulo Palladini
Labirinto sem paredes
Um cliente me falava, dias atrás, que, cansado das dificuldades
e incertezas do mundo atual, tem apreciado o refúgio de sua chácara,
onde desfruta um pouco de paz e o clima bucólico do lugar. Segundo
ele, ali, isolado de tudo, sente-se bem e pode respirar à vontade.
Não tem noticiários a bombardeá-lo, minuto a minuto,
com as peripécias do ser humano sobre a terra. Ali ele pode usufruir
das coisas boas que a vida oferta às almas simples. No lugar do
asfalto a relva macia, em lugar do escritório a sombra de um abacateiro,
em vez de relógio o balanço do vento. Tempo de sobra para
caminhar, colher frutas, coçar a cabeça, arrancar mato do
chão, tomar da água cristalina. Respirar! Encher os pulmões
de ar. Soltar. À noite, ouvir estrelas, como já escrevera
o poeta. Atento à sua fala não deixei de registrar o que
a memória me enviava: ecos de pensamento dos filósofos gregos
Epicuro e Aristóteles. Em tempo de dificuldades extremas, carente
de orientação e limites, o melhor é reunir os amigos,
aqueles com quem temos afinidades, e viver as delícias do jardim.
Fenelon, citado por Will Durant em sua História da Filosofia, escreveu
sobre Epicuro: “comprou um belo jardim, que ele mesmo cultivava.
Foi lá que instalou sua escola, e ali vivia uma vida tranquila
e agradável com seus discípulos, aos quais ensinava enquanto
andava e trabalhava (...) Era delicado e afável para com todos
os homens”... Aristóteles, que o antecedera, achava que objetivo
da vida humana era a felicidade, que para Epicuro significava prazer,
isto é, total ausência de dor ou sofrimento. Num de seus
livros, chamado Ética, Aristóteles descreveu o que, para
ele, seria o ser humano ideal: “Ele não se expõe desnecessariamente
ao perigo, uma vez que são poucas as coisas com que se preocupa
o suficiente; mas está disposto, nas grandes crises, a dar até
a vida sabendo que em certas condições não vale a
pena viver. Está disposto a servir aos homens, embora se envergonhe
quando o servem. Fazer um favor é sinal de superioridade; receber
um favor é sinal de subordinação... Ele não
toma parte em manifestações publicas... É franco
quanto a suas antipatias e preferências; fala e age com franqueza...
Nunca se deixa tomar de admiração, já que a seus
olhos nada é excelente. Não consegue viver com complacência
para com terceiros, a menos que se trate de um amigo... Não lhe
preocupa o fato de que deve ser elogiado ou que outros devam ser censurados.
Não fala mal dos outros, mesmo de seus inimigos, a menos que seja
com eles mesmos. Seus modos são serenos ... sua fala é comedida...
Ele suporta os acidentes da vida com dignidade e graça, tirando
o máximo proveito de suas circunstâncias... É o melhor
amigo de si mesmo e se delicia com a privacidade, ao passo que o homem
sem virtude ou capacidade é o pior inimigo de si mesmo e tem medo
da solidão”. Na sua bucólica chácara meu cliente
vivencia, ser o saber, o que muitos antes dele pensaram e fizeram. O retorno
à natureza e à simplicidade ressurge sempre que o humano
se defronta com o túnel estreito ou o deserto extremo. Quando,
para além do jardim, não há mais nenhuma regra clara
nem pautas do viver. Quando tudo é um perder-se sem fim num labirinto
sem paredes. Construímos um belo jardim ou saímos por aí
destruindo a velha des-ordem?
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Paulo Palladini
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