Voltar - Paulo Palladini

(In)segurança

Segunda feira à noite. Muito calor. Vou ao bairro do Descanso com Ana. As pessoas estão nas ruas; grupos de quatro a seis moradores formam rodas e conversam animadamente. Há vários grupos, cadeiras trazidas de casa. Quem procurávamos estava numa dessas rodas, conversava com vizinhos. O ar é mais fresco ali na calçada que dentro de casa. Ana evocou a letra de Gente Humilde (Garoto-Vinícius-Chico): são casas simples com cadeiras na calçada/e na fachada escrito em cima que é um lar... Imediatamente pensei no meu bairro, onde não há cadeiras nas calçadas, nem fachadas escritas: é um lar. O ato de entrar e sair de casa já comporta riscos. Notícias de furtos e roubos são frequentes. Muros altos, cercas eletrificadas, grades, câmeras, alarmes, vigilantes, seguro residencial. No entanto, muros de quatro metros não nos protegem. Nada disso aumenta a sensação de segurança. Não me pareceu que lá no Descanso as pessoas estivessem com medo de um assalto ou preocupadas com isso. Simplesmente tinham a posse do lugar; sabem que as ruas lhes pertencem como cidadãos que são. Os vizinhos conversam, mantém laços de amizade, fazem trocas. Há solidariedade entre eles. Talvez haja um entendimento de que integram uma comunidade. Laços fraternos juntam famílias, talvez há muitas gerações. Penso: são vizinhos no sentido antigo, comunitário, não apenas vizinhos formais, que compartilham muralhas. A perda da solidariedade, cimento social, decorre do individualismo e do isolamento. Onde moramos podemos nem saber o que se passa ao lado. No máximo
ouvir, de vez em quando, um alarme. Estudos mostram que o crime se distribui nas cidades por agrupamentos geográficos. Certas ruas, praças, áreas urbanas concentram mais crimes que outras. Muitos fatores contribuem para isso. Muitos fatores também contribuem para diminuir a incidência e inibir a violência. Um deles é a concentração de recursos nos locais mais visados. Presença maior da polícia onde há mais crime. Os estudos mostram que o crime não migra para outros locais. Tenho notado maior movimentação policial no meu bairro nas últimas semanas. Até bateram em minha porta, perguntaram se estava tudo bem, se ali não tinha ocorrido nenhuma tentativa de furto. A presença concreta da polícia afasta os ladrões. E aumenta a sensação de segurança. Mas como ela não pode estar presente em todos os lugares, sua distribuição criteriosa é tática. Os homens da lei confrontam os homens do crime. Epa! Homens do crime? Um presidiário me disse que dentro da penitenciária tem os homens do crime e os que não são. Os do crime são profissionais, encaram suas atividades criminosas como qualquer outro profissional. Não estão lá esperando ser reabilitados. Cumpridas suas penas, ou abreviadas, voltam tranquilamente para o mundo ... do crime. Na verdade nem se desligam dele, preservam durante a prisão seus laços com os companheiros. A sociedade não pode com uma situação dessas. Ou pode?

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Paulo Palladini