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- Paulo Palladini
Imagens e palavras.
Pinço da Folha
de domingo, 25 de outubro, imagens e palavras. Ilustram meu método
de leitura, que consiste em destacar o que me atrai a atenção,
e depois ligar uma coisa e outra, um assunto a uma imagem, e assim por
diante. Como o pré-socrático Heráclito penso que
tudo está em movimento, e tudo se relaciona com tudo. Em semana
de violência midiática leio a entrevista de David Weisburd,
professor da Universidade de Jerusalém, sobre criminalidade, da
qual é grande estudioso: “Por muitos anos a pesquisa na área
de criminologia teve como foco entender por que as pessoas cometem crimes.
Em meu trabalho comecei a fazer perguntas diferentes: onde o crime ocorre?”
Descobriu ele que os crimes se concentram em pequenas áreas das
cidades, e propôs ações mais racionais de prevenção
e controle. Um de seus estudos, feito em Seattle, mostrou que 50% dos
crimes ocorrem em apenas 4% das ruas da cidade. Interessante. Mapear as
regiões onde os fatos acontecem permitem ações mais
eficazes. Na mesma página Moacyr Scliar, médico e escritor
brasileiro, lembra o centenário de morte de Cesare Lombroso, fundador
da antropologia criminal, ciência que estuda o crime através
de métodos científicos: “Compreender a mente, inclusive
a mente do criminoso, é um objetivo que permanece como um desafio
para o nosso mundo, no qual a violência é um fenômeno
habitual”, escreveu Scliar. E mais adiante, em outro trecho do artigo:
Pinel, no século XVIII, determinou que nos hospícios “os
pacientes não podiam mais ser acorrentados”... Aí
vou para outro caderno do jornal, e vejo a foto: investigador de polícia
e transexual, em fase maníaca, após cometer um roubo, foi
algemado à cama do hospital – enfermaria psiquiátrica
do Hospital das Clínicas da Unicamp. O chefe do Departamento de
Psiquiatria da Universidade, Paulo Dalgalarrondo, declarou: “Em
situações assim, indica-se a contenção –
amarração e imobilização do paciente com o
uso de lençóis. Serve para proteger paciente e a equipe”.
E as algemas? Isto já é Brasil, século XXI, com reforma
psiquiátrica e tudo. Ainda na linha da violência vejo reportagem
de Eduardo Ohata sobre filme biográfico do boxeador Mike Tyson,
o grande lutador, o mais jovem campeão mundial da história.
Entre as várias tragédias de sua vida, está a morte
do filho de 4 anos de idade, num acidente doméstico. Logo depois
de sua última luta em 2005, quando abandonou o boxe, já
decadente, declarou: “Não sou mais um animal feroz”.
E se acabou. Jane Birkin, hoje com 62 anos, ficou mundialmente conhecida
pela canção Je t’aime...mois non plus, que interpretou
com Serge Gainsbourg, compositor e marido. Na entrevista que concedeu
a Célia Walden sobre o filme Boxes, que ela dirigiu, disse: “era
sobre o desejo de uma mãe de que suas filhas sejam levadas a sério,
que não se tornem conhecidas apenas por sua beleza, como aconteceu
comigo. Ser bonita é ótimo, mas de repente se torna a única
coisa que importa sobre você”. Ela falava de si e de Chartotte
Gainsbourg, a filha, que acabara de ganhar a Palma de Ouro no festival
de cinema de Cannnes por Anticristo ( de Lars von Trier). Outra imagem
no mesmo jornal: a tirinha do cartunista Laerte - Piratas do Tietê.
Primeiro quadro: “Já fui um heterossexual convicto”.
Segundo quadro: “Depois um comunista convicto”. Terceiro quadro:
“Depois um ateu convicto”. Quarto: “Que dia é
hoje?”. Pois é. Mais palavras: José Arthur Giannotti,
abordando o esvaziamento do discurso político atual, cita Pierre
Clastres: “em seu estudo sobre os guaranis, nos conta que, no fim
da tarde, o chefe se levantava e começava a discursar ao léu,
sem eira nem beira”. É, também vemos acontecer. Giannotti
relata que, como os guaranis retratados, nossos líderes são
“profetas do vazio”, e o máximo que podem nos oferecer
é “o ritual do falar purgante”. Purgante.
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