Voltar - Paulo Palladini


O grande carnaval. Parte dois

Domingo de carnaval, 22 para 23 de fevereiro. Deu meia noite; cumprimento Ana, ela me cumprimenta. É nosso aniversário. Poucos casais têm esse privilégio de nascerem no mesmo dia. Nós temos. Cumprimentamo-nos há 27 anos. Em pleno carnaval. Desta vez estamos na avenida. Os três blocos da Liga Mocoquense estão passando. O público comparece. Unidos da Santa Cruz, Vira Virô e Fundão desfilam; fazem a festa. Está bonita: cores, brilhos, luzes, sons. Não é competição; os blocos apenas se apresentam. Capricho nas fantasias e coreografias. Vera, Ricardo Figueiredo estão lá. Pai e filho Miyashiro, e também Maciel e Markinhos fotografam tudo. Du Cirielli caprichou na organização. Mococa precisa fazer reviver seus carnavais. Du faz, e recebe homenagem da Santa Cruz, que também homenageia os dois outros blocos. Noite bonita, agradável. Encontro pessoas: Jeferson de Freitas, do jornal A Mococa e sua mulher Jane, Heloisa, Mariana e a filha Anita, que resistiu aos acordes e ritmos madrugada adentro, Eliana e Robertinho da TV Direta, filhos, Helinho e Alessandra, dona Daminha, que já não teria idade para enfrentar uma avenida (mas enfrenta). Abraço o prefeito Toni Naufel, o filho André, Broto Pinheiro e Tereza. Paula sai na Ala da Preguiça do Vira Virô. E muita gente vem perguntar se estamos bem, expressar solidariedade . Isso porque nas últimas semanas fomos vítimas de roubos. Duas vezes. Na primeira vez, domingo, dez horas da noite. Saio para visitar meus pais a duas quadras de distância. Cerca de dez minutos depois dois ladrões saltam o muro e abordam minha filha. Um deles portava um foião enferrujado. Dentro do aposento pedem para ela ficar quieta, pegam relógios, celular e o notebook, em que fazia anotações de trabalho naquele mesmo instante. Rapidamente pulam o muro de volta e desaparecem. Pouco depois Ana chega em casa e as duas saem para a rua. Da casa de meus pais aciono a Polícia Militar, que chega em poucos minutos. Passam a mensagem para outros carros, inspecionam o local, mas os larápios já haviam sumido na escuridão. Na delegacia o plantão registra a ocorrência. Voltamos para casa. Quinta-feira, 19, estou no consultório, despeço-me do último paciente do dia. São sete e quinze da noite. De repente ouço um grito desesperado. Entra na sala Cleusa, minha secretária, acompanhada de um homem. Ele aponta um revólver para a cabeça dela, e anuncia o assalto. Indica com a arma os lugares para nos sentarmos. Quer dinheiro e celulares. Entregamos o que temos. Observo que ele demonstra firmeza e controle da situação. Não faz questão de cobrir o rosto. Fala olhando nos olhos; deixa que eu faça o mesmo. Negociamos algumas coisas, percebi que era possível. Antes de sair arranca os fios dos telefones e alerta-nos de que precisa tempo para fugir, se não teria que fazer reféns. Asseguramo-lhe, que aguardaríamos quietos. Deixa-nos amarrados com fita adesiva e fios, mas acede num ponto: porta da sala aberta. Pega a chave do meu carro, que estava estacionado em frente, mas ao fim abandona-a na mesa de entrada. Desfazemo-nos das amarrações, ligamos para a Polícia Militar, que atende de pronto, e preenche outro formulário de ocorrência. Mais uma vez estou eu na Delegacia, relatando o novo episódio. Nos dois casos os ladrões portavam armas, e invadiram dois dos lugares mais sagrados para um cidadão: sua casa (domicílio inviolável) e seu trabalho. Lamentável. Porém, quantos casos como esses não são registrados todos os dias? E se nas ruas reina a insegurança, onde é que eu, cidadão mocoquense, posso me sentir seguro? Se alguém tiver a resposta, que responda.

 

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Paulo Palladini