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O carnaval é sempre um reflexo e uma resposta às crises.
E também é mais que isso. Desta vez não é
diferente. Como fenômeno de criação coletiva e popular,
o carnaval é sensível às temperaturas do mundo. Seus
temas dialogam com os acontecimentos. Suas cores, seus ritmos respondem
às angústias contemporâneas. Nele a alegria é
a prova dos nove, mas esta alegria é muitas vezes filtrada por
máscaras negras. Quanto riso! Quanta alegria! Mil palhaços
espalhados por todos os cantos ... na cadência bonita do samba.
E das marchinhas, dos frevos, dos forrós, do maracatu. O carnaval
encerra uma duplicidade de sentimentos: a alegria que não cabe
em si e a tristeza ensimesmada. Como a alegria e a tristeza são
sentimentos universais todos deles compartilham e desfrutam. Mesmo aqueles
que não gostam de carnaval, os que não trocam passos numa
avenida nem fazem balançar o chão da praça. E até
aqueles que tão somente malentoam uma débil mamãe
eu quero na clarineta. Esses, ao meu ver, são tão carnavalescos
como os frenéticos-dos-salões e os corpos-suados dos blocos
e os ritmistas mais entusiasmados. A dança é um fenômeno
da mente, tanto quanto é do corpo. Portanto, não menosprezemos
aqueles que aparentemente estão parados. Há ritmo e alegria
dentro neles. Só falta agitar os braços e abrir o peito.
Agora, se o carnaval tem um lugar esse lugar é a rua; as praças
e avenidas. Todas as praças Castro Alves são do povo. Quando
compreendermos isso em todos os seus sentidos, afastaremos o horror e
a violência que associamos a esses lugares. Como se fossem territórios
do inimigo. Aumentamos muros, trancamos portas e janelas, instalamos alarmes
e cercas eletrificadas. Transformamos nossas casas em jaulas douradas
para melhor cultivar o medo. Ponho vendas em meus próprios olhos;
não quero ver o que se passa na rua. No máximo observar
de longe, através da tele-visão como um espia, confortavelmente
instalado em minha poltrona. Já há muito deixamos de ver
o outro como um irmão. Se o inferno são os outros, o diabo
é um outro. Um não-irmão. É por isso que o
diabo está mais forte do que nunca. E mais perto. Isso não
tem nada a ver com o carnaval. Carnaval é simplesmente o reinado
da folia. E todos precisamos de folia. Fruição: para além
das responsabilidades que a nossa vida social encerra ao peito varonil.
Pelo que também sei o diabo não tem nenhum humor. Nenhum
espírito zombeteiro. O bicho é, mas muito é mal humorado.
Não tem nada a ver com carnaval. Sua sisudez cinzenta não
combina com o riso, contentamento, os gestos largos, a paixão.
Mas no carnaval ele deixa mostrar o rabo, como a crise mostra a crise.
Máscaras de Osama e Obama dividem espaço nas bancas com
outras personalidades mais ou menos notórias. Assim misturadas
ela mostram mais do que fazem parecer. Assim misturadas elas são
as duas faces da mesma moeda. Junto com Emilinha Borba, Jamelão,
Getúlio Vargas e Napoleão ferido, entre outros, eles vão
descer a avenida do povo unido jamais vendido, e entrar na folia ao som
de todos os pandeiros. Saudemos, portanto, a empreitada, como se bandeiras
fossem, e os personagens, intrépidos bandeirantes de casaca, remando
a favor num Rio Tietê de águas mais que cristalinas. Do alto
da minha poltrona eu vos saúdo: blocos, cordões, escolas
de samba, passistas, carnavalescos, reis momos, tambores, cuicas, tamborins,
trombones e fantasias, que fazem dessa alegria incontida, o grande carnaval.
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