Voltar - Paulo Palladini


O grande carnaval

O carnaval é sempre um reflexo e uma resposta às crises. E também é mais que isso. Desta vez não é diferente. Como fenômeno de criação coletiva e popular, o carnaval é sensível às temperaturas do mundo. Seus temas dialogam com os acontecimentos. Suas cores, seus ritmos respondem às angústias contemporâneas. Nele a alegria é a prova dos nove, mas esta alegria é muitas vezes filtrada por máscaras negras. Quanto riso! Quanta alegria! Mil palhaços espalhados por todos os cantos ... na cadência bonita do samba. E das marchinhas, dos frevos, dos forrós, do maracatu. O carnaval encerra uma duplicidade de sentimentos: a alegria que não cabe em si e a tristeza ensimesmada. Como a alegria e a tristeza são sentimentos universais todos deles compartilham e desfrutam. Mesmo aqueles que não gostam de carnaval, os que não trocam passos numa avenida nem fazem balançar o chão da praça. E até aqueles que tão somente malentoam uma débil mamãe eu quero na clarineta. Esses, ao meu ver, são tão carnavalescos como os frenéticos-dos-salões e os corpos-suados dos blocos e os ritmistas mais entusiasmados. A dança é um fenômeno da mente, tanto quanto é do corpo. Portanto, não menosprezemos aqueles que aparentemente estão parados. Há ritmo e alegria dentro neles. Só falta agitar os braços e abrir o peito. Agora, se o carnaval tem um lugar esse lugar é a rua; as praças e avenidas. Todas as praças Castro Alves são do povo. Quando compreendermos isso em todos os seus sentidos, afastaremos o horror e a violência que associamos a esses lugares. Como se fossem territórios do inimigo. Aumentamos muros, trancamos portas e janelas, instalamos alarmes e cercas eletrificadas. Transformamos nossas casas em jaulas douradas para melhor cultivar o medo. Ponho vendas em meus próprios olhos; não quero ver o que se passa na rua. No máximo observar de longe, através da tele-visão como um espia, confortavelmente instalado em minha poltrona. Já há muito deixamos de ver o outro como um irmão. Se o inferno são os outros, o diabo é um outro. Um não-irmão. É por isso que o diabo está mais forte do que nunca. E mais perto. Isso não tem nada a ver com o carnaval. Carnaval é simplesmente o reinado da folia. E todos precisamos de folia. Fruição: para além das responsabilidades que a nossa vida social encerra ao peito varonil. Pelo que também sei o diabo não tem nenhum humor. Nenhum espírito zombeteiro. O bicho é, mas muito é mal humorado. Não tem nada a ver com carnaval. Sua sisudez cinzenta não combina com o riso, contentamento, os gestos largos, a paixão. Mas no carnaval ele deixa mostrar o rabo, como a crise mostra a crise. Máscaras de Osama e Obama dividem espaço nas bancas com outras personalidades mais ou menos notórias. Assim misturadas ela mostram mais do que fazem parecer. Assim misturadas elas são as duas faces da mesma moeda. Junto com Emilinha Borba, Jamelão, Getúlio Vargas e Napoleão ferido, entre outros, eles vão descer a avenida do povo unido jamais vendido, e entrar na folia ao som de todos os pandeiros. Saudemos, portanto, a empreitada, como se bandeiras fossem, e os personagens, intrépidos bandeirantes de casaca, remando a favor num Rio Tietê de águas mais que cristalinas. Do alto da minha poltrona eu vos saúdo: blocos, cordões, escolas de samba, passistas, carnavalescos, reis momos, tambores, cuicas, tamborins, trombones e fantasias, que fazem dessa alegria incontida, o grande carnaval.

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Paulo Palladini