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O gato e o canário O
que aconteceria se eu pusesse meu gato para tomar conta de um canário?
A resposta é óbvia, por mais civilizado que fosse meu gato
e por mais esperto que fosse o canário. Ninguém, em sã
consciência cometeria tal imprudência. Pois em política
fazemos exatamente isso. Cometemos a imprudência repetidas vezes.
Escolhemos o gato para cuidar do canário e quando ele faz o que
seus instintos mandam, fingimos indignação. Contrariamente
aos homens os gatos não podem escolher uma determinada conduta
entre várias possíveis. Os homens podem, pois têm
história e consciência para orientá-los. É
incrível; durante todo o período republicamo o Brasil viveu
mais tempo sob ditaduras que regimes democráticos. O povo brasileiro
sempre lutou para ter garantido o direito de escolher os governantes em
eleições livres e diretas. Muitos que hoje usufruem do regime
democrático opuseram-se à sua implantação
com todas as forças. Muitos outros sofreram para que a democracia
prevalecesse, inclusive na defesa dos que se opuseram tão tenazmente
a ela. Sentimos, como povo, imensa necessidade de enaltecer os valores
democráticos de nossa sociedade e reagimos fortemente a qualquer
gesto antidemocrático. Para que, se na hora de votar esquecemos
toda a experiência acumulada e escolhemos mal, comportando-nos como
homens com agá minúsculo, fazendo política com pê
minúsculo? Por que não ousamos? Que é essa compulsão
de repetir sempre os mesmos erros? As velhas raposas serão sempre
velhas raposas, ou melhor, gato é sempre gato... estará
sempre a perseguir o canário. Nem um nem outro tem condições
de mudar sua própria natureza. Acredito no ser humano, na sua capacidade
de mudança e superação, mas gato é gato. O
homem é o único ser com capacidade para fazer algo daquilo
que é feito dele. Talvez esta seja sua essência, o verdadeiramente
humano. Mas existem os gatos. E esses não têm jeito. Nossa
experiência confirma e a prudência manda não ignorar
o passado. Não nos iludamos. Um vampiro, dizem, estaria rondando
a cidade; teria mostrado a cara aqui e ali. Não as garras, não
os dentes. Quem tem medo de vampiro? Não estamos já acostumados
e enfadados? Como escreveu certa vez o jornalista Clovis Rossi: convivemos
com vampiros políticos há muito tempo, permitindo-lhes que
se apropriem do melhor de nossos esforços e de nossas energias.
Não nos iludamos: a eleição de um gato ou de um vampiro
não lhes dará a chance de se regenerarem. Isso não
acontecerá pois sua natureza é imutável. Eles não
têm estrutura para mudar, mas nós podemos mudar nossas escolhas.
É tão simples como pedir um suco de tamarindo ao invés
da primeira marca de refrigerante cujo nome vem à cabeça.
Exige que sejamos menos compulsivos e menos cheios de certezas. Que sejamos,
enfim, mais humanos e menos gatos. Leia
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