Voltar - Paulo Palladini

O gato e o canário

O que aconteceria se eu pusesse meu gato para tomar conta de um canário? A resposta é óbvia, por mais civilizado que fosse meu gato e por mais esperto que fosse o canário. Ninguém, em sã consciência cometeria tal imprudência. Pois em política fazemos exatamente isso. Cometemos a imprudência repetidas vezes. Escolhemos o gato para cuidar do canário e quando ele faz o que seus instintos mandam, fingimos indignação. Contrariamente aos homens os gatos não podem escolher uma determinada conduta entre várias possíveis. Os homens podem, pois têm história e consciência para orientá-los. É incrível; durante todo o período republicamo o Brasil viveu mais tempo sob ditaduras que regimes democráticos. O povo brasileiro sempre lutou para ter garantido o direito de escolher os governantes em eleições livres e diretas. Muitos que hoje usufruem do regime democrático opuseram-se à sua implantação com todas as forças. Muitos outros sofreram para que a democracia prevalecesse, inclusive na defesa dos que se opuseram tão tenazmente a ela. Sentimos, como povo, imensa necessidade de enaltecer os valores democráticos de nossa sociedade e reagimos fortemente a qualquer gesto antidemocrático. Para que, se na hora de votar esquecemos toda a experiência acumulada e escolhemos mal, comportando-nos como homens com agá minúsculo, fazendo política com pê minúsculo? Por que não ousamos? Que é essa compulsão de repetir sempre os mesmos erros? As velhas raposas serão sempre velhas raposas, ou melhor, gato é sempre gato... estará sempre a perseguir o canário. Nem um nem outro tem condições de mudar sua própria natureza. Acredito no ser humano, na sua capacidade de mudança e superação, mas gato é gato. O homem é o único ser com capacidade para fazer algo daquilo que é feito dele. Talvez esta seja sua essência, o verdadeiramente humano. Mas existem os gatos. E esses não têm jeito. Nossa experiência confirma e a prudência manda não ignorar o passado. Não nos iludamos. Um vampiro, dizem, estaria rondando a cidade; teria mostrado a cara aqui e ali. Não as garras, não os dentes. Quem tem medo de vampiro? Não estamos já acostumados e enfadados? Como escreveu certa vez o jornalista Clovis Rossi: convivemos com vampiros políticos há muito tempo, permitindo-lhes que se apropriem do melhor de nossos esforços e de nossas energias. Não nos iludamos: a eleição de um gato ou de um vampiro não lhes dará a chance de se regenerarem. Isso não acontecerá pois sua natureza é imutável. Eles não têm estrutura para mudar, mas nós podemos mudar nossas escolhas. É tão simples como pedir um suco de tamarindo ao invés da primeira marca de refrigerante cujo nome vem à cabeça. Exige que sejamos menos compulsivos e menos cheios de certezas. Que sejamos, enfim, mais humanos e menos gatos.

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Paulo Palladini