A gata Petit e seus filhotesNa madrugada da quarta-feira Petit, uma de nossas gatas, deu à luz três gatinhos. Já tínhamos quatro em casa: Cabral, o macho, Tamá, Branca e Petit. Cabral é o guardião, passa as noites em vigília no alto dos muros. Vez ou outra aparece machucado. Pode ter sido briga ou namoro. Se alguém passa pela rua pode vê-lo no alto de um pilar, o luar fazendo fundo. Seu nome é Cabral porque ele veio para casa no dia 22 de abril. Então, Cabral. Aquele que inventou o Brasil. Tamá nasceu em casa. Costumo fazer os partos dos animais que nascem em nosso território. Eu mesmo tirei-a do saco amniótico, cortei o cordão umbilical. Talvez por isso ela tenha uma ligação muito forte comigo, costuma dormir sobre minhas coisas: roupas, pasta, computador. E gato, como sabemos, dorme a maior parte do tempo. A mãe de Tamá, Clara, gerou quatro filhotes, que fomos doando para os amigos. Todos pretos. Quando restava um Clara desapareceu para sempre. Gatos, misteriosos gatos. Tamá é uma corruptela de Tamanduá. Quando pequena seu rabo enorme vivia levantado como a bandeira de um tamanduá. Branca foi trazida por Ana de Muzambinho. Uma senhora amiga ofertou-a e Ana aceitou. Posso descrevê-la como uma gata danada. Muito agitada, agressiva, impõe-se sobre as outras pela intimidação. Branca não respeita o espaço dos outros, nem a comida. Avança sobre o prato das companheiras, mesmo que o seu esteja cheio. Dá patadas. E sua diversão preferida é afiar as unhas nos sofás da casa. Nenhum escapa. E também mostra as unhas com muita facilidade. Morde. Não gosta de ser acarinhada. Depois que engravidou melhorou bastante seu comportamento. Devo acrescentar que revelou-se uma ótima mãe, cuidou muito bem da prole e protegeu-a das investidas dos cães da casa. Uma mãe zelosa, que não se afastava minuto da cria. Um dos cinco filhotes nasceu morto. Enterrei-o ao pé de uma árvore, no bosque defronte nossa casa. Não precisaria dizer que Branca é branca, totalmente branca. Seus filhos foram adotados por amigos e pessoas que gostam de gatos. Nina, uma das filhas, mora em São Paulo com Gustavo e Patrícia; de vez em quando vem passar uns dias conosco. Petit é a mais nova dentre os animais da casa. Ana fora visitar um gatil. A gata estava lá numa gaiola à espera de um possível dono. Tinha oito meses! Acompanhou Ana com o olhar, fez alguns movimentos e sons. Pronto, identificadas, Petit veio para casa naquele mesmo dia. Como ficou muito tempo na gaiola, costuma andar meio de lado, em semicírculos. Sequela do confinamento. Costuma olhar para cima, procurando objetos e seres voadores. Investe contra alguns. Mas Petit é meiga e nunca, nunca mostrou as unhas para ninguém. Quando contrariada ela se contorce toda, mas não expõe as unhas. Também não arranha portas de armários nem poltronas. É marrom, tem a cara achatada e fica a maior parte do tempo com a ponta da língua de fora. Nos dois últimos dias ela estava inquieta, andava de cá para lá, desassossegada. Passou a emitir um miado estranho, uma espécie de guincho. Ao andar balançava o tronco, barrigão proeminente. E sem que ninguém presenciasse, sozinha, pariu seus três filhotes, acomodando-os na caminha que Ana havia preparado. No silêncio, sem importunar ninguém. Quando acordamos de manhã vimo-la deitada de lado, os três mamando. Cordões umbilicais ainda grudados nas placentas. Com cuidado cortei-os. Petit não arredou mais pé dali. Seu instinto materno tem se mostrado forte. Agora sua missão é ser mãe. E mãe não abandona seus bebês. Quando cheguei, no começo da noite, ela ainda estava lá. Miou alguma coisa, olhou para os pequenos, olhou para mim. Entendi que mostrava, com orgulho, seus rebentos. Lambeu-os com energia. Petit, mãe, não abandona os seus filhotes. Que beleza! Leia
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