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- Paulo Palladini
O artigo de frei Betto que eu gostaria de ter escrito
Chama-se Sinfonia de
corpos o artigo que li quinta-feira, 3 de junho, na Folha, assinado por
frei Betto. É um daqueles textos que eu gostaria de ter escrito.
Deve ter sido a mesma sensação que teve Milton Nascimento
quando ouviu, pela primeira vez, a canção Caçador
de mim, de Sérgio Magrão e Luis Carlos Sá. Ele afirmou
na época: gostaria eu de ter escrito esta canção.
Mas não precisou, bastou interpretá-la. Maria Bethania também
é assim, interpreta tão intensamente que passam a serem
dela os versos, as melodias, as expressões. De seu modo Bethania
participa da obra; quando um compositor mostra-lhe uma canção,
ela sugere mudanças, alterações, trocas. Há
palavras que ela não pronuncia de jeito nenhum, então pede
para trocar. Ao cantar põe toda a sua personalidade no canto, suas
falas saem do mais profundo. Frei Betto começa assim: “Na
festa do Corpo de Cristo, deixarei meu corpo flutuar em alturas abissais.
Acariciarei uma por uma de minhas rugas, desvelarei histórias,
apreenderei, na ponta dos dedos, meu perfil interior. Suspenderei todas
as flexões, exceto as que aprendo na academia dos místicos.
Beberei do próprio poço e abrirei o coração
para o anjo da faxina atirar pela janela da compaixão iras, invejas
e amarguras”. Ele não precisaria escrever mais nada, mas
continuou, inspirado por não sei qual Espírito: “Na
mesa cósmica, ofertarei as primícias de meus sonhos. Acolherei
o corpo do Senhor no cálice das minhas carências. Dobrarei
os joelhos ao mistério da vida e contemplarei o rosto divino na
face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são
gregas palavras e deitam raízes na mesma beleza”. Grande
frei Betto, batizado no sangue e nas águas do grande rio, que ainda
escreveu: “Suspenderei da mente a profusão de imagens e represarei
no olvido o turbilhão de ideias. Privarei de sentido as palavras...
Recolherei pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los
no sangue de Cristo”. Não poderiam ter passado diante de
meus olhos, neste dia santificado, melhores palavras. Viver, para mim,
é respeitar o Mistério, e até destituir de sentido
as palavras, que tudo buscam explicar, convencer, iludir. Grato, frei
Betto, por tornar melhor meu dia. Para mim as ações humanas
devem servir, sempre, para tornar melhor a vida de cada outro: nossos
irmãos.
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Paulo Palladini
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